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Inicio > Archivos > Vol. 6, Núm. 12 (2018)

 

 Caminhos para o futuro: o futuro e o papel da América Latina no livro O ano 2000, de Herman Kahn e Anthony Wiener

Caminos para el futuro: el futuro y el papel de América Latina en el libro El año 2000, de Herman Kahn y Anthony Wiener

Paths to the future: the future and the role of the Latin-America in the book The year 2000, by Herman Kahn and Anthony J. Wiener

 

Fabio S. Andrioni

Doutor em História Social

Pós-doutorando

Grupo Khronos; Instituto de Estudos Avançado

São Paulo, Brasil

fsandrioni@gmail.com

http://orcid.org/0000-0002-6017-2141

 

 

 

Resumo: Este artigo analisa as previsões e os planejamentos de futuro apresentados pelos estudiosos do futuro Herman Kahn e Anthony J. Wiener no livro “O ano 2000: uma estrutura para especulação sobre os próximos trinta e três anos”. Este artigo é parte constituinte de um estudo mais amplo sobre as teorias de desenvolvimento e as visões de futuro produzidas ao longo dos anos 1960 e 1970 nas Américas. As reflexões sobre o futuro são feitas com base em conceitos e na estrutura interpretativa de Koselleck, porém, também entendemos que essas interpretações sobre o futuro constituem, em algum sentido, alguma forma de reflexão e interpretação sobre a história, já que não conseguem abandonar a história ao abordarem o futuro. Essas visões de futuro, portanto, não tratam exclusivamente do porvir, mas também do entendimento do passado e da organização do presente. No caso aqui analisado, buscamos delinear o tratamento sobre a organização mundial apresentado no livro e os reflexos disso para América Latina, relacionando esses argumentos com diretrizes propostas para a ação estadunidense que aparecem justificadas pelo futuro, mas visando ações presentes.

 

Palavras-chave: desenvolvimento; teoria; historiografia; futurologia; imperialismo.

 

Resumen: Este artículo analiza las previsiones y los planes de futuro presentados por los estudiosos del futuro Herman Kahn y Anthony J. Wiener en el libro "El año 2000: un marco para la especulación sobre los próximos treinta y tres años". Este artículo constituye de un estudio más amplio sobre las teorías de desarrollo y las visiones de futuro producidas a lo largo de los años 1960 y 1970 en las Américas. Las reflexiones sobre el futuro se basan en conceptos y en la estructura interpretativa de Koselleck, pero también entendemos que esas interpretaciones sobre el futuro constituyen, en algún sentido, alguna forma de reflexión e interpretación sobre la historia, ya que no logran abandonar la historia al abordar el futuro. Estas visiones de futuro, por lo tanto, no tratan exclusivamente del porvenir, sino también del entendimiento del pasado y de la organización del presente. En el caso aquí analizado, buscamos delinear el tratamiento sobre la organización mundial presentado en el libro y los reflejos de eso para América Latina, relacionando esos argumentos con directrices propuestas para la acción estadounidense que aparecen justificadas por el futuro, pero visando acciones presentes.

 

Palabras clave: desarrollo; teoría; historiografía; futurologia; imperialismo.

 

Abstract: This paper analyzes the future predictions and the plans presented in the book "The Year 2000: a framework for Speculation on the next thirty-three years" by the futurologists Herman Kahn and Anthony J. Wiener. This article is part of a broader study regarding the theories of development and the visions of the future produced throughout the 1960s and 1970s. Our reflections on the future are made on the basis of Koselleck's concepts and interpretative structure. We also understand these interpretations on the future are some form of reflection and interpretation about the history, since they cannot abandon the past. These visions of the future, therefore, do not deal exclusively with the future, but also approach the understanding of the past and the organization of the present. In this paper, we seek to delineate the treatment of the world organization presented in the book and its reflections about Latin America. We relate these arguments with the proposed guidelines for American action that were justified by the future, nonetheless aimed present actions.

 

Key words: development; theory; historiography; futurology; imperialism.

 

 

Fecha de recepción: 5 de mayo de 2018.

Fecha de aceptación: 26 de mayo de 2018.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Citar este artículo:

 

 

Chicago para las Ciencias Físicas, Naturales y Sociales

Andrioni, Fabio S. 2018. Caminhos para o futuro: o futuro e o papel da América Latina no livro O ano 2000, de Herman Kahn e Anthony Wiener. Revista nuestrAmérica, 6 (12): 289-314.

 

Chicago para las Humanidades

Andrioni, Fabio S., “Caminhos para o futuro: o futuro e o papel da América Latina no livro O ano 2000, de Herman Kahn e Anthony Wiener”, Revista nuestrAmérica 6, no. 12 (2018): 289-314.

 

APA

Andrioni, F. S. (2018). Caminhos para o futuro: o futuro e o papel da América Latina no livro O ano 2000, de Herman Kahn e Anthony Wiener. Revista nuestrAmérica, 6 (12), 289-314.

 

MLA

Andrioni, Fabio S. “Caminhos para o futuro: o futuro e o papel da América Latina no livro O ano 2000, de Herman Kahn e Anthony Wiener”. Revista nuestrAmérica. 6. 12 (2018): 289-314. Web. [fecha de consulta].

 

Harvard

Andrioni, F. S. (2018) “Caminhos para o futuro: o futuro e o papel da América Latina no livro O ano 2000, de Herman Kahn e Anthony Wiener”, Revista nuestrAmérica, 6 (12), pp. 289-314. 

 

 

 

 

 

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Em 1968, era lançado, no Brasil, o livro “O ano 2000: uma estrutura para especulação sobre os próximos trinta e três anos”, escrito pelo famoso e polêmico futurólogo, físico e estrategista da guerra atômica, Herman Kahn, e pelo praticamente anônimo cientista político, Anthony J. Wiener. O livro era fruto de trabalhos do Hudson Institute sobre o futuro da humanidade.

O Hudson Institute foi o think tank montado por Herman Kahn logo que ele saiu da RAND Corporation. A RAND era um instituto de pesquisa que, desde 1946, trabalhava exclusivamente para a Força Aérea especulando, planejando e pesquisando sobre a guerra nuclear e as estratégias e táticas para se evitar e, caso necessário, lutar este tipo de guerra (Shrader 2006, 69; Smith 1991, 117; Dickson 1971, 24; Rich 2004, 42; Stevenson 2008, 35-6). Kahn trabalhou na RAND de 1947 a 1960 (Bruce-Biggs 2000, 13, 16-8; Ghamari-Tabrizi 2005, 63, 132-3). Ao sair da RAND, ele fundou, em 1961, seu próprio instituto, o qual intentava atuar na mesma área da RAND, ou seja, o planejamento militar e de defesa para o governo estadunidense (Bruce-Biggs 2000, 133-4; Smith 1972, 2; Ghamari-Tabrizi 2005, 309). Contudo, ao longo dos anos 60, o Instituto, por questões orçamentárias e também pelo recuo de investimentos do governo, buscou ampliar sua atuação. Ao estabelecer relações com outras potenciais fontes de pagamento e com meios para tentar novas fontes, Kahn e o seu Instituto, em 1965, iniciaram um trabalho em conjunto com a Comissão Para o Ano 2000, a qual, por sua vez, era ligada à American Academy of Arts and Sciences e financiada por um setor filantrópico de uma empresa fabricante de vidro e cerâmica para finalidades científicas e industriais, a Corning Glass Foundation. A intenção da Comissão era traçar as tendências e as bases para o futuro, assim como indicar as consequências que poderiam surgir. O conjunto de relatórios produzidos pelo Hudson Institute foram reunidos em 1967 no livro The year 2000: a framework for speculation on the next thirty-three years. Esse mesmo livro que foi traduzido para o português em 1968 (Singer 1966, 1, 4, 6-7; Bruce-Briggs 1972, 304; Smith 1972, 4, 13-4; Report 1968, 2-4, 5, 7; Report 1969, 4, 7).

O livro apresenta todo um conjunto metodológico para realizar as previsões, assim como algumas previsões para o ano 2000. Essa metodologia é uma adaptação feita, ao longo dos anos 60, das ferramentas desenvolvidas ao longo dos anos do planejamento militar feito na RAND. Essa adaptação visava a apresentação desse serviço especulativo e de previsão e planejamentos do futuro para outras instâncias dentro do governo estadunidense, assim como para empresas privadas nacionais e internacionais e para os governos de outros países. Porém, não foi só por essa expansão ou por um suposto sucesso das previsões que o livro foi traduzido para o português. Kahn e o Hudson Institute já tinham sido polêmicos no Brasil desde 1967, quando foram divulgados pela primeira vez as propostas elaboradas por Robert Panero, membro do Instituto, para a construção de lagos, inclusive um enorme na Floresta Amazônica, visando o desenvolvimento da América do Sul. A questão foi bastante debatida entre políticos e a imprensa brasileiras e gerou rebuliço. Foi, em parte, essa polêmica que levou à tradução do livro para o português. Outro fator que contribuiu para a tradução do livro em português e a divulgação das ideias do Hudson Institute no Brasil foi a atuação o interesse de certos setores políticos e econômicos, principalmente pela figura de Roberto Campos (Panero 1964, 17-8; Fico 2008, 61; Kaufmann, 1964; Smith 2005, 115-6, 232-3; Panero e Kahn 1965, 75; Panero 1967, 1; Albuquerque 1968, 3; Militares, 1968, 6; Deputado 1968, 6; Técnicos 1968, 5).

Com a finalidade de divulgar o livro, Herman Kahn veio ao Brasil. Porém, aqui, ele enfrentou o descrédito de suas previsões e bastante críticas, as quais acabaram atingindo um tom jocoso e até ofensivo, principalmente em relação à massa corpórea de Kahn, que chegava a cento e trinta e sete quilos. Um dos motivos desse ataque da imprensa brasileira ao autor foram algumas de sues previsões sobre o Brasil. Agora, veremos que visão os autores apresentam para o mundo e o papel da América Latina e do terceiro mundo no O ano 2000, assim como qual a base e a finalidade dessas previsões. (Herman 1969; Quem 1969, 26-9).

As previsões e os planejamentos de Kahn e Wiener começam por traçar as tendências que existiam e que provavelmente continuariam até o ano 2000. Os autores entendem esse conjunto como interdependente e, a esse conjunto, os autores dão o nome de tendência múltipla, a qual é composta por treze tendências (Kahn e Wiener 1967, 5-7). Após traçadas essas tendências, a próxima etapa é extrapolá-las para o futuro sem considerar nenhuma surpresa. É, portanto, supor a continuidade das tendências. Isso resultaria em um mundo padrão, o qual permitiria, ainda, algumas variações, porém, sem fugir da projeção simples das tendências (Kahn e Wiener 1967, 8, 38, 249). Para pensar as surpresas, os autores propõem o uso de cenários, que seriam situações hipotéticas de possíveis futuros surpreendentes. Os cenários poderiam ser fruto de uma imaginação “disciplinada”, o que significaria elaborar hipóteses embasadas (Kahn e Wiener 1967, 6, 262-3). O embasamento para isso seria não só uma intuição treinada na “prática” de pensar acontecimentos conforme uma morfologia permitida pelas tendências, como também, pelo uso do passado, de forma metafórica, para levantar elementos para pensar hipoteticamente o futuro. A isso, os autores dão o nome de metáfora heurística (Kahn e Wiener 1967, 26-7, 32).

As tendências que impactariam diretamente no crescimento econômico, no desenvolvimento dos países e nos problemas sociais que os autores consideram possíveis para o fim do século XX e início do XXI são: culturas cada vez mais empíricas, mundanas, seculares, humanísticas, pragmáticas, utilitárias ou hedonistas; elites burguesas, burocráticas, “meritocráticas”, democráticas e nacionalistas; acumulação de conhecimentos científicos e tecnológicos; institucionalização da mudança, principalmente da pesquisa, do desenvolvimento, da inovação e da difusão; industrialização e modernização em escala mundial; aumento da riqueza e do lazer; crescimento demográfico; urbanização e o crescimento das megalópoles; alfabetização e instrução; aumento da capacidade de destruição em massa. Essas tendências também são usadas para obter exemplos de eventos surpreendentes que poderiam ocorrer. Portanto, as análises do O ano 2000 para o futuro do mundo, da América Latina e do Brasil seguem um critério econômico-social que, todavia, também teria um impacto decisivo da e na cultura. A tecnologia também seria essencial para o entendimento desse futuro pensado para o ano 2000 (Kahn e Wiener 1967, 7). As principais fontes de elementos surpreendentes viriam, então, dessas mesmas tendências, mas também dependeriam fortemente da situação geopolítica do mundo, outro elemento que os autores também analisam.

Para o futuro, Kahn e Wiener acreditavam na concretização da sociedade pós-industrial. Esta sociedade seria resultado da automação e da mecanização do trabalho nos setores primário e secundário. Essa automação elevaria o Produto Nacional Bruto (PNB)[1] e reduziria a carga horária de trabalho das pessoas. Em paralelo, ocorreria uma diminuição populacional. Com aumento do PNB e com a diminuição do número de pessoas no mundo, haveria um aumento da renda per capita. Com essas rendas maiores e com a carga de trabalho reduzida, o trabalho deixaria de ser gradualmente um valor fundamental da civilização ocidental, sendo superado pela valorização do aperfeiçoamento intelectual e artístico[2].

Sua concretização dependeria da continuidade e do desenvolvimento das tendências de industrialização e de modernização em escala mundial e de aumento da riqueza e do lazer. Para entender esses desdobramentos, os autores utilizam cinco categorias essencialmente econômicas para classificar as nações e indicar os efeitos da industrialização e da modernização:

 

1. Pré-industrial

50 a 200 dólares per capita

2. Parcialmente industrializada ou em transição

200 a 600 dólares per capita

3. Industrial

600 a +ou- 1500 dólares per capita

4. Consumo em massa ou industrial avançado

1500 a +ou- 4000 dólares per capita

5. Pós-industrial

+ de 4000 a +ou- 20000 dólares per capita (Kahn e Wiener 1967, 58)

 

Conforme explicação de Kahn e Wiener, os países pré-industriais seriam a condição historicamente normal, uma vez que foi a situação da maioria das sociedades humanas nos últimos dez milênios. A exceção seriam os últimos dois ou três séculos, quando, pela primeira vez, sociedades produziram mais do que 200 dólares de renda per capita por ano. Por essa ótica, a Indonésia, na época do livro, por exemplo, representaria uma civilização historicamente normal, pois possuía uma população de 100 milhões de pessoas e uma renda média per capita de 100 dólares, fazendo com que os indonésios vivessem de maneira semelhante à dos romanos antigos (Kahn e Wiener 1967, 57). 

A diferença, segundo Kahn e Wiener, era a industrialização, a qual alterou o padrão, fazendo surgir as sociedades parcialmente industrializadas. Essas sociedades consistem em um estágio de transição. O estágio seguinte, as sociedades industrializadas, já estão mais próximas do estágio de consumo em massa e são exemplificados com os EUA na década de 20, ou a Europa logo após a II Guerra (Kahn e Wiener 1967, 58). Foi só após a II Guerra, conforme os futuristas, que surgiu o estágio de sociedade de consumo em massa. Primeiramente, ocorreu nos EUA, em seguida, na Europa Ocidental e no Japão (Kahn e Wiener 1967, 59).

Chegar ao estágio de sociedade pós-industrial, todavia, não seria somente um resultado econômico. Conforme os autores, nações com objetivos como o poder mundial, que seria o caso da União Soviética, ou com dificuldades para obter crescimento econômico, como a Alemanha ocidental, ou com expectativas maiores de produção de riqueza, como os EUA, não alcançariam o estágio pós-industrial sem atingir níveis maiores de riqueza (Kahn e Wiener 1967, 59).

Para Kahn e Wiener, a situação concreta que engendraria a sociedade pós-industrial seria o crescimento ocorrido entre 1952 e 1967. Os autores acreditavam que essas taxas de crescimento se manteriam de forma regular até o ano 2000 (Kahn e Wiener 1967, 127-8). Essa projeção se assentava em quatro fatores. Primeiramente, o “culto do crescimento” compartilhado pelas nações e que tinha como busca principal a expansão econômica. O segundo fator era o crescimento exponencial e um conjunto de conhecimentos técnicos sobre a ciência administrativa e as técnicas de produção, os quais estavam disponíveis e prontos a serem exportados. Outro fator era o controle, por meio de mecanismos de manipulação econômica por parte dos países avançados, que poderiam ser usados para aumentar o Produto Nacional Bruto, por exemplo, colaborando com a difusão e a inovação das técnicas e tecnologias. O último fator eram os aprimoramentos nos programas mundiais visando o fim ou a diminuição das barreiras comerciais, a criação e o aprimoramento de mercados comuns e os conhecimentos sobre teorias e formas de realizar o crescimento. Outros fatores menos regulares que poderiam, na opinião dos autores, contribuir com o crescimento seriam a transferência de mão-de-obra, que poderia tanto advir do movimento de trabalhadores dos setores rurais para os urbanos, a alocação de trabalhadores desempregados ou sub-empregados em outras atividades produtivas e, por fim, a migração de trabalhadores sem família. Por outro lado, as nações menos desenvolvidas, como as latino americanas, poderiam ter seu desenvolvimento freado por falta de investimento, ausência de mão de obra qualificada, má administração governamental, indisposição política ou pressão demográfica constante. Porém, para os autores, esses problemas não seriam permanentes (Kahn e Wiener 1967, 119-23).

O problema principal que decorreria do crescimento econômico e que afetaria diretamente também a América Latina é a dicotomização. A dicotomização poderia ocorrer em diferentes níveis. Primeiramente, poderia ser dentro dos países, por meio de economias dualistas, as quais são definidas, pelos futuristas, como o contraste do desenvolvimento avançado dos grandes centros urbanos com o desenvolvimento tímido das menores cidades e das zonas rurais. Os autores reconhecem que esse problema seria mais agudo em regiões como a América Latina. Porém, a dicotomização também poderia se manifestar no nível global, até o ano 2000, na relação da questão demográfica com a questão econômica, basicamente, quando os seis países mais populosos do mundo (China, Índia, Paquistão, Indonésia, Brasil e Nigéria) poderiam conter metade da população mundial e, por outro lado, seriam, conforme projeção dos autores, parcialmente industrializados no ano 2000 (Kahn e Wiener 1967, 58-9).

Os autores projetavam, para o ano 2000, uma população mundial de 6 bilhões e 400 milhões de pessoas (Kahn e Wiener 1967, 59). A projeção é feita de forma macro-histórica. Uma primeira causa do aumento populacional foi a Revolução Agrícola, ocorrida entre 8500 e 7000 a.C., a qual permitiu a produção de alimentos e, por consequência, a multiplicação dos seres humanos. No longo prazo, a população mundial aumentou de 10 milhões em 8000 a.C. para 3 bilhões e 300 milhões de pessoas em 1965 d.C., alcançando uma taxa de aproximadamente 80% de crescimento por milênio (Kahn e Wiener 1967, 150). Todavia, os autores reconhecem que esse crescimento não fora linear, pois houve um aumento maior após 1650 d.C. Até esta data, a taxa de crescimento fora de 50% a cada mil anos, alcançando, porém, 2000% após a data. Os autores não acreditavam na manutenção dessa taxa, apostando em uma estabilização quando a população mundial chegasse entre 10 e 50 bilhões de pessoas (Kahn e Wiener 1967, 150-2).

Com a concretização do crescimento populacional previsto e projetado, o que ocorreria seria o aumento da disparidade econômica, uma vez que os países menos desenvolvidos abrigariam ¾ da população mundial, porém só teriam 14,5% da produção do mundo inteiro. Haveria, portanto, conforme as projeções dos autores, taxas de crescimento diferentes entre as nações. Kahn e Wiener acreditavam que essa disparidade continuaria se os programas de ajuda estrangeira, os padrões de comércio e as instituições econômicas internacionais não se alterassem. Com isso, partes da América do Norte e da Europa, Japão e Oceania apresentariam um desempenho econômico praticamente igual ao da América Latina, da Ásia e da África (Kahn e Wiener 1967, 141). Todavia, mesmo as nações pobres testemunhariam a melhora dos seus padrões de vida tradicionais, já que haveria um aumento real do PNB per capita. Além disso, outro aprimoramento real é que 40% da população mundial viveria em sociedades pós-industriais ou industriais e mais de 90%, em países que já teriam abandonado o estágio histórico pré-industrial. A fonte de problemas estaria, no entanto, no aspecto comparativo, uma vez que existiria um hiato entre os padrões de vida dos países ou setores de países com economias desenvolvidas (industriais, de consumo de massa e pós-industriais) e os padrões dos níveis pré-industriais, ou seja, subdesenvolvidos (Kahn e Wiener 1967, 59-61, 141-3).

Outros problemas que acompanhariam a dicotomização na especulação de Kahn e Wiener seriam as instabilidades próprias do princípio de industrialização, de urbanização e das determinações gerais da tendência múltipla que os países menos desenvolvidos enfrentariam. Junto delas, haveria as expectativas do progresso econômico, próprias da difusão das experiências e dos fatos passados pelos países industrializados e pós-industriais. Dessa forma, as reações dos países subdesenvolvidos frente ao desenvolvimento geral era indeterminada, podendo ser tanto de satisfação, quanto de inveja e de ressentimento pelas discrepâncias crescentes e cada vez mais visíveis, devido ao desenvolvimento e ao barateamento da comunicação e dos transportes mundiais (Kahn e Wiener 1967, 141-3).

Como projeção da tendência-múltipla, esses seriam os resultados econômicos e sociais obtidos para o mundo padrão, fruto de uma extrapolação óbvia e sem surpresa das tendências. A principal preocupação, portanto, é com a dicotomização, que poderia gerar uma sensação equivocada de atraso, que não seria absoluta, uma vez que todos países e setores estariam crescendo economicamente, mas seria uma percepção relacional, já que a sensação de atraso existiria em comparação com os países ou setores já desenvolvidos. Isso poderia, também, apresentar impactos políticos, ameaçando inclusive a relação de coexistência pacífica, a qual os autores consideravam benéficas.

No campo da política, a crença era na coexistência pacífica entre URSS e EUA. Mais do que uma crença, essa previsão é como uma defesa a partir da opinião e da análise dos autores de que a situação presente era desejável. Kahn e Wiener também acreditam que os territórios das nações mais velhas permaneceriam sem alterações, uma vez que não haveriam invasões, nem violências internas (Kahn e Wiener 1967, 221-2). Para ilustrar esse ponto, os autores constroem uma comparação nos moldes da metáfora heurística, relacionando a política da época com episódios da Antiguidade.

Os EUA são comparados com Roma, a Europa, com a Grécia e a URSS ou a China com a Pártia ou a Pérsia. Considerando os gregos-europeus, os autores afirmam que eles acreditavam que poderiam constituir um império mundial, todavia, falharam. A Grécia, apesar de ter estendido suas conquistas, não conseguiu manter a coesão do seu “império”, o qual entrou em colapso antes mesmo do impacto do Império Romano. Por sua vez, a Europa colonizou o mundo subdesenvolvido e dominou-o, com exceção dos EUA, Japão e alguns países da América Latina, até 1914. Esse domínio muitas vezes não era direto, mas por meio da influência sobre as ações desses países. No entanto, nos anos 1960, conforme Kahn e Wiener, todos os países, exceto alguns menos desenvolvidos, já eram independentes politicamente e das influências da Europa Ocidental, tornando-se, alguns desses países, inclusive hostis à Europa (Kahn e Wiener 1967, 222-3).    

Já os romanos, para os autores, foram forçados a intervir três vezes no mundo grego, visando evitar sua dominação por um único poder. Tiveram que intervir por conta de uma ameaça ou de uma afronta contra um de seus aliados. As duas primeiras vezes foram ainda na primeira metade do século II a.C., quando lutaram duas vezes seguidas contra os Macedônicos e uma vez contra a Síria e, então, retiraram-se após cumprirem sua missão. A terceira intervenção ocorreu quando o postulante ao trono da Macedônia, fragmentada em quatro repúblicas, obteve algumas vitórias contra as forças romanas de ocupação. As cidades gregas de Tebas, Atenas e Coríntio acreditaram que aquele era o momento para se aliar ao postulante macedônico. Entretanto, os gregos foram derrotados e, então, os romanos acharam necessário permanecer e administrar metade da área que fora conquistada pelos gregos, anexando a Grécia e a Macedônia ao Império. A outra metade da Grécia coube a Pártia, com quem os romanos tinham uma coexistência incômoda (Kahn e Wiener 1967, 222-3). 

Traçando o paralelo com os anos 60, os autores argumentam que os EUA lutaram duas guerras na Europa no século XX e, ao fim delas, tornaram-se o maior poder do mundo sem, todavia, desenvolver um gosto pelo imperialismo agressivo. Todavia, Kahn e Wiener acreditavam que se os EUA achassem necessário intervir em mais uma guerra europeia ainda no século XX, os estadunidenses poderiam considerar – tal como os romanos –  os aliados mais ou menos abertos ao inimigo e, com isso, pareceria plausível tomar medidas definitivas para prevenir uma IV Guerra Mundial, mesmo se representasse a ocupação permanente da Europa. Porém, por existir poucos exemplos sobre situações semelhantes nas histórias americana e mundial recentes, essa situação não era considerada parte do mundo padrão (Kahn e Wiener 1967, 223-4).

Definidas, então, as duas potências na Antiguidade, os futuristas afirmam que a relação entre Roma e Pártia foi como uma Guerra Fria pontuada com campanhas “quentes”. Nenhum dos lados parecia que ganharia e a coexistência continuou por séculos, até o Islã conquistar ambos – hipótese não considerada para comparar um possível efeito da Guerra Fria. Os autores concluem que Roma estava menos disposta do que a Grécia a colonizar o mundo, preferindo uma política de “equilíbrio do poder”, a qual consistia em evitar o crescimento de um poder único, grande e suficientemente forte que poderia representar uma ameaça. Para realizar este objetivo, os romanos, tal como os estadunidenses, usaram um sistema de alianças (Kahn e Wiener 1967, 222-3). É, portanto, a política de equilíbrio de poder que, como veremos, concretiza-se pela coexistência pacífica com a URSS.

Ou seja, para os autores, a transformação dos EUA como potência mundial, com características de um imperialismo renovado, foi algo fortuito, quase como uma intervenção necessária e não desejada para estabelecer uma ordem frente a uma falha das potências anteriores em organizar e manter uma situação de coexistência no mundo.  

Portanto, Kahn e Wiener acreditavam que os EUA e a URSS seriam as duas superpotências, com a Europa (Ocidental), o Japão e a China em um estágio logo abaixo, como nações com potencial de decisão. Por fim, a Europa Oriental, a América Latina, a Ásia e a África seriam coadjuvantes. A questão política central seria a forma e a manutenção da coexistência, a qual os autores interpretavam e definiam como a existência de forças que conseguissem uma cooperação e uma situação de tolerância vantajosas para todos, mas que também, essas mesmas forças, produzissem situações de confrontação competitivas. Kahn e Wiener defendem um equilíbrio entre os elementos que poderiam causar o conflito e os elementos que levariam ao fim ou diminuição das tensões. Portanto, seria a ameaça constante de que as hostilidades existentes conduziriam a um nível mais grave que caracterizariam a coexistência. Em outras palavras, ela consistiria no equilíbrio das forças que poderiam causar os conflitos definitivos com as forças coesivas, resultando em uma competição pacífica (Kahn e Wiener 1967, 224-5).

É claro, portanto, que Kahn e Wiener defendem a continuidade da competição entre URSS e EUA e, por isso, preocupam-se também com o futuro da antagonista. A primeira justificativa para essa defesa é, inicialmente, promover outros interesses que evitem o conflito armado, apesar de não evitarem os conflitos ideológico e político. Ao acreditar que nenhum país superaria o outro militarmente, os futuristas argumentam que a perda de prestígio de alguma das duas potências poderia motivar o antagonista a tirar vantagem. Portanto, a situação, para o ano 2000, mais óbvia pelas projeções, e que deveria ser buscada, conforme o planejamento político, seria a manutenção da competição com a URSS, pois, na avaliação dos autores, traria algum incentivo ao desenvolvimento dos EUA conforme o adversário se desenvolvesse. Além disso, a URSS já era um antagonista conhecido, com quase vinte anos de relação. Deixar surgir uma força nova seria, de alguma forma, ter que reconfigurar os estudos, os planejamentos e as previsões. Todavia, os autores também ressaltam a importância dos aspectos imagéticos desses avanços, os quais, portanto, podem também ser falsos ou ilusórios, servindo apenas para exagerar as concretizações e a imagem do adversário, tendo, com isso, elementos para fomentar os próprios avanços e a própria imagem (Kahn e Wiener 1967, 225-6). 

Já que a URSS é uma parte importante para justificar e balizar o próprio desenvolvimento dos EUA, os autores também dedicam parte de sua análise ao seu antagonista. Basicamente, entendem que, aquilo que avaliam como uma postura totalitária que o país assumira representou, de alguma forma, uma desilusão para os marxistas, afastando a URSS da crença e de apoiar as revoluções pelo mundo, causando uma queda na representatividade da URSS frente ao movimento comunista mundial, o que daria a chance da China ganhar a liderança do movimento. Esse afastamento também poderia resultar de efeitos da dicotomização, já que a URSS poderia ganhar o estigma de demasiado rica e branca, afastando-se dos pobres, latinos, africanos e asiáticos (Kahn e Wiener 1967, 233-4). Todavia, essas mudanças, para os autores, não afetariam o estatuto de potência da URSS.

Já sobre o papel da China, afirmam a representatividade histórica do país, uma vez que, por 2000 anos (até 1800, aproximadamente), a cultura chinesa foi a mais destacada. Assim, a posição de segundo plano que a China ocupava nos anos 60 poderia ser apenas um hiato do protagonismo chinês (Kahn e Wiener 1967, 22). Os autores se dedicam a desmitificar certas visões sobre a China, visando retirar dela o estatuto quase que inevitável de uma potência para o futuro. Inicialmente, havia a crença de que a população enorme do país representava capacidades política, militar e econômica ímpares. O problema, para os autores, era que essa população era essencialmente de camponeses, o que dificultaria a mobilização de tal população para as áreas militares e econômicas. Outro mito é acerca da disciplina chinesa, a qual redunda em um desenvolvimento industrial. Kahn e Wiener acreditavam em um crescimento, porém, não viam que tais resultados impressionariam se comparadas aos EUA e a URSS. Um terceiro mito é o que considera os chineses como irracionais, tornando-os incontroláveis. Esses três mitos refletiam em uma ilusão sobre o tamanho potencial do exército chinês, porém, os autores não viam a capacidade financeira, alimentícia e produtiva da China como suficiente para sustentar esse exército potencial. O resultado disso seria um baixo poder ofensivo, mesmo com armas nucleares. Por fim, há um último mito, que seria a capacidade de fomentar revoluções imediatas em regiões próximas ou distantes. Os autores desacreditam esse mito, pois não viam as lideranças políticas do país querendo tomar parte em outras revoluções. Uma questão que Kahn e Wiener consideravam incerta era acerca da extensão e do tipo de influência que a China poderia exercer sobre a Ásia, América Latina e África. A conclusão de Kahn e Wiener é que, havendo o apoio de outros países, a URSS e os EUA poderiam conter a China (Kahn e Wiener 1967, 230-2). Portanto, a China é desmistificada pelos autores, fazendo-os concluir que ela não ameaçaria o equilíbrio pacífico e positivamente competitivo entre EUA e URSS.

Já o Japão, para os autores, poderia ocupar a posição da China como liderança na Ásia. E essa ascensão japonesa poderia ocorrer já nos anos 70. De forma geral, o Japão aparece como um aliado para os EUA, tanto politicamente, quanto ideologicamente (Kahn e Wiener 1967, 237). Já sobre a Europa, os autores a viam como elemento facilitador para a coexistência, pois mantinha relações comerciais com a URSS e essa relação comercial cresceria conforme se intensificasse as relações entre os EUA e a URSS. Contudo, um fator decisivo seria se a Comunidade Econômica Europeia se concretizaria como uma unidade política (Kahn e Wiener 1967, 229). De toda forma, os autores avaliam a Europa como um intermediário importante para que a coexistência não se tornasse cooperação, impedindo a competição benéfica. Uma das atenções dos autores, na Europa, é a Alemanha, como elemento símbolo da Guerra Fria. Acreditavam que, caso a cisão do país se mantivesse, a Alemanha Oriental poderia se tornar cada vez mais um país legítimo e viável, podendo, inclusive, prescindir do apoio das tropas soviéticas, podendo até, em algum momento, opor-se aos soviéticos. Disso, poderia surgir um sentimento realmente nacionalista. Acreditavam que a Alemanha Ocidental se manteria alinhada aos EUA, por medo da ameaça soviética (Kahn e Wiener 1967, 234-6).

O futuro da Ásia e da África seria instável, fruto do efeito mais visível da dicotomização que ocorreria principalmente pelo contato que estabeleceriam com o mundo desenvolvido, produzindo a sensação de desigualdade. Para os autores, uma das manifestações mais comuns nos dois continentes era o socialismo nacionalista. Esse tipo de socialismo tinha poucas semelhanças com a URSS ou a China, pois era, na avaliação de Kahn e Wiener, uma busca por liberdade e por identidade, misturadas com xenofobia, ódio racial e exclusivismo cultural. Havia também, conforme Kahn e Wiener, alguns elementos idealizados, como a noção de “revolução social”, as religiões asiáticas ou as culturas africanas. Isso resultava em slogans socialistas que não eram somente contra as antigas potências coloniais, mas também funcionavam como uma forma de afirmação semi-talismânica[3] e uma rejeição a um sistema capitalista considerado obsoleto. Apesar de não refletirem as ideologias socialistas soviética ou chinesa, a URSS e a China apoiavam esses movimentos. Assim, caso os movimentos obtivessem sucesso, as relações com as potências socialistas poderiam se fortalecer. Porém, os autores não acreditavam que esses fenômenos seriam comuns até o ano 2000 e também não confiavam em suas crenças como respostas aos problemas modernos, principalmente se se manifestasse uma rejeição à ideologia do desenvolvimento (Kahn e Wiener 1967, 237-8).

Outro participante desse jogo mundial é a América Latina. Para os autores, desde a metade do século XIX, um sentimento anti-EUA dominava a região. Para os autores, essa antipatia teria motivos racionais e irracionais. Os motivos racionais seriam reforçados pelas interferências dos EUA, política e militarmente, em assuntos latino-americanos. Para os autores, a principal causa irracional dessa antipatia era a necessidade de a América Latina se distinguir, culturalmente, da civilização protestante, comercial e agressiva que seria os EUA. Já os motivos irracionais, na opinião dos autores, seriam, primeiramente, a preocupação de que os EUA dominassem a região. Reflexo disso, era um suposto ciúmes dos países do sul da América pelo poderio estadunidense. Apesar do diagnóstico, os autores acreditavam que algumas modificações estavam acontecendo. Um exemplo disso seria a autoconfiança adquiridas por brasileiros, mexicanos e colombianos, a qual decorria do êxito da industrialização, propiciando uma sociedade multirracial, uma revolução social bem-sucedida e um aprendizado em como lidar com os EUA sem precisar apoiar seus inimigos. Portanto, Kahn e Wiener afirmavam que a modernização da América Latina colaborava e continuaria colaborando com a mudança da imagem dos EUA. O processo de “assemelhação” entre os setores urbanos da América Latina e dos EUA ajudaria nisso (Kahn e Wiener 1967, 240-1).

Os autores acreditavam que os problemas da América Latina pareciam mais contornáveis e toleráveis do que os da África e Ásia, pois haveria uma proporção mais favorável, na America Latina, na relação pessoas-recursos. Além disso, a América Latina era produto direto da cultura europeia ocidental, não havendo a necessidade de adaptação cultural das elites. Todavia, ainda existiriam os problemas chamados de culturais por Kahn e Wiener, como a dificuldade para implantar de governos parlamentares e as mudanças sucessivas e não raras vezes violentas e ilegais de governo. Os autores também não acreditavam que, caso o comunismo triunfasse na América Latina, ele seguiria o modelo da URSS ou da China, tendendo muito mais ao caudilhismo, ou seja, seguiria mais o líder do que a ideologia. O esperado era que a América Latina conseguisse, no fim do século XX, padrões de vida comparáveis ao da Itália em 1967, enfrentando o problema da dicotomização que se materializaria na disparidade da renda média entre as classes sociais, ou talvez entre as regiões rurais e urbanas. Tal fenômeno poderia causar um êxodo rural para as favelas urbanas. Os autores acreditavam na solução desse problema, porém com o surgimento de grandes tensões, os quais, no entanto, não gerariam movimentos opressivos e violentos (Kahn e Wiener 1967, 241-2).

Ao reconhecer essa imagem ruim dos EUA na América Latina e sabendo que poderiam haver e haviam outras potências que poderiam parecer mais simpáticas, ou por empatia da condição de subdesenvolvimento, ou por ideologia, há, então, uma preocupação em tentar melhorar a imagem dos EUA como um parceiro para o desenvolvimento e com propostas concretas para isso. Nesse sentido, o Hudson Institute tinha uma série de estudos sobre a América Latina, os quais eram apresentados para os governos da região e para empresas nacionais e multinacionais, convidando-as para participar dos projetos e, futuramente, recolher os frutos do desenvolvimento deles, na esteira do desenvolvimento dos países. Todavia, os projetos eram também apresentados para os órgãos do governo dos EUA, muitas vezes sob a argumentação de segurança nacional, já que estabeleceria o país como parceiros e entusiasta do desenvolvimento dos vizinhos, visando melhorar a imagem do país (Fico 2008, 65, Andrioni 2014, 127-8).

Porém, não bastava melhorar a imagem e manter uma política de influência e ação indiretas sobre os vizinhos latino-americanos, era necessário também aprofundar as possibilidades de desenvolvimento dos atores no jogo internacional e evitar a guerra, ou saber como utilizá-la para manter uma suposta estabilidade do sistema. Kahn, já desde a época da RAND, estudava os mecanismos para manter o sistema mundial de forma mais interessante para o governo do momento. No O ano 2000, a busca é pela conservação do equilíbrio de poder e da coexistência competitiva e pacífica (Kahn e Wiener 1967, 359-60).

O primeiro aspecto analisado é a corrida armamentista. Apesar de ela poder produzir guerras, os autores acreditam que isso não é um padrão. Kahn e Wiener acreditam que uma guerra nuclear só ocorreria por falta de opção e que a utilização de tais artefatos não seria de forma descuidada ou incontida. Por isso, os futuristas cogitam a possibilidade de a corrida armamentista causar sua própria diminuição. Isso, para os autores, estaria claro na relação EUA-URSS, na qual os dois países evitavam passar os limites para não dar início a uma guerra nuclear ou a uma crise não-nuclear. Além disso, o sistema estava de tal forma controlado, que qualquer crise nas nações não desenvolvidas não representaria o início da III Guerra, mesmo se as armas nucleares se tornassem posse de governos irresponsáveis e instáveis. Mesmo com a difusão de armas nucleares (Kahn e Wiener 1967, 360-2), a situação de corrida armamentista estaria restrita a poucos países, os poderosos e ambiciosos, mas, ainda assim, prudentes. Porém, todos os países, pela própria ideologia do crescimento, prefeririam o crescimento interno do que a expansão estrangeira (Kahn e Wiener 1967, 365).

Todavia, a grande mudança seria sobre a concepção da guerra. Para os autores, com o fim da II Guerra, iniciou-se um período de guerra limitada, “fria” e revolucionária, e as armas nucleares colaboraram com essa situação. Para Kahn e Wiener, essa situação poderia se estender até o século XXI, com as nações cada vez mais cautelosas, cuidadosas e hábeis em evitar ou controlar a possibilidade de conflito nuclear. Mesmo que uma grande guerra nuclear acontecesse, ela não representaria o fim da história[4], pois, na visão dos futuristas, o planejamento bem feito, cogitando todas as possibilidades e preparando-se para elas, evitaria esse destino. Todavia, a dicotomização poderia levar nações a ponderar que a utilização do poder bélico nuclear seria uma forma de extravasar as frustrações, as insatisfações e as rivalidades. Por outro lado, a utilização de uma arma nuclear poderia ser uma retaliação de um país desenvolvido contra alguma atitude considerada beligerante de um menos desenvolvidos. Tal situação poderia fazer com que as potências começassem a usar as armas atômicas como elemento dissuasivo na política internacional, acirrando a corrida armamentista (Kahn e Wiener 1967, 368).

Uma das configurações possíveis de um mundo com o controle da guerra, orientado para a estabilidade ou para o status quo é o estabelecimento de uma coordenação política e econômica entre as potências já industrializadas e desenvolvidas visando assegurar e melhorar suas posições por meio de relações estreitas. Essas relações poderiam existir, conforme os autores, entre EUA, URSS, Comunidade Econômica Europeia, incluindo Reino Unido, Dinamarca e Noruega, Europa Oriental (sem a cortina de ferro), Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Japão, Argentina, Brasil e México. Estes países participariam de todas as decisões importantes. A China estaria fora devido aos seus próprios insucessos. A intenção seria de desenvolver o resto do terceiro mundo por meio de programas de auxílio, porém, eles funcionariam mais como caridade, agindo pouco no crescimento da riqueza do terceiro mundo. Assim, as nações afro-asiáticas e da América que não estão no grupo anterior não teriam importância, excetuando-se alguma pequena força nuclear, como China ou Índia. Ainda haveria revoltas, todavia, ou elas seriam controladas pelas nações avançadas, ou seriam deixadas para se solucionar sozinhas. Relações neo-colonialistas existiriam e seriam encaradas pelas nações mais avançadas, como um ato de benevolência (Kahn e Wiener 1967, 250).

Esse conjunto de características faria com que os países ricos já pudessem ser pós-industriais. No entanto, isso não seria o alívio das tensões dentro dos países. O terceiro mundo seria composto por regimes conservadores, alguns movimentos revolucionários, ainda que ineficazes, e por colapsos político e moral. Particularmente as nações afro-asiáticas enfrentariam a desilusão sobre seus desenvolvimentos, já que enfrentaria problemas populacionais, falta de especialização e de recursos, doutrinas econômicas e políticas não apropriadas. Esses países também não teriam força política e militar relevante. Programas de mercados comuns ou de livre comércio existiram, porém, colaborariam mais com os países da Europa ocidental, buscando eliminar a pobreza dessa área, servindo mais à manutenção do status quo. Ainda que essa situação pudesse colaborar com o crescimento do terceiro mundo, esse não seria o compromisso das potências dirigentes assumiriam com essa finalidade (Kahn e Wiener 1967, 251-2). Ou seja, um mundo de uma coexistência ampla, sem competitividade, não propiciaria, conforme os autores, um desenvolvimento global e teria grandes chances de acirrar as partes dicotômicas.

Outra possibilidade, oposta a anterior, era um mundo voltado para o desenvolvimento ou para a ajuda. Nele, o mundo se organizaria para a busca do desenvolvimento e do bem-estar, com organizações internacionais trabalhando para isso, assim como com o estabelecimento de relações entre nações ricas e pobres. Muitas dessas políticas seriam executadas pelo livre comércio ou por grupos de mercados comuns na América Latina, África e Ásia. Isso faria com que o terceiro mundo, estabelecesses relações estáveis e edificadoras com o mundo desenvolvido, propiciando um ritmo econômico que equilibraria os descontentamentos políticos. Haveria ainda um sentimento de que a mudança era eminente e as nações estavam trabalhando para isso. Economias mistas existiriam, o que enfraqueceria o comunismo e a revolução perderia o sentido no Terceiro Mundo. Haveria, portanto, um senso geral de progress (Kahn e Wiener 1967, 252-3). Cabe ressaltar que esse progresso seria essencialmente o liberal-capitalista, que acabaria praticamente cooptando o comunismo como parte dessa construção.

Em comum a esses dois mundos está uma entente que favorece ou somente as grandes potências ou o terceiro mundo e o mundo como um todo. Todavia, em ambos os casos, o comunismo apareceria enfraquecido frente a um sucesso capitalista. O problema é que o mundo capitalista não teria um grande antagonista para poder se reinventar. Nos dois mundos, a sociedade pós-industrial se concretizaria em questão de décadas no mundo inteiro. O terceiro mundo poderia ainda sofrer os efeitos da dicotomização, porém, não seria uma ameaça global. Seria, portanto, algo entre os dois mundos, com o interesse pela manutenção ou invenção de um antagonista para continuar fomentando o crescimento capitalista e ocidental.

Os mundos mais introspectivos, conforme os futuristas, apresentariam pluralismo de poder e de influência política, com os países mais preocupados com os interesses nacionais e pouco conflito. Seriam ainda, portanto, mundos estáveis, fruto, principalmente, das preocupações internas, de desilusões e desconfianças políticas e de prudência ou de declínio ideológico (Kahn e Wiener 1967, 255).

Uma das possibilidades é a que considera o comunismo desintegrado, resultando em um sistema multipolar, estável e com pouca influência dos EUA e da URSS, uma vez que esses países também teriam uma postura “neo-isolacionista” devido a uma série de desapontamentos e frustrações. Os EUA, por exemplo, evitariam intervenções militares na América Latina, pois as que fizeram, buscando trazer ordem à região, criaram relações diplomáticas e econômicas difíceis e hostis. Com as duas potências fechadas, a coexistência competitiva se fragilizaria, abandonando dependentes e aliados e deixando espaço para outras forças, como as nações Europeias, organizadas como uma comunidade econômica e a China, disputando com a URSS a liderança sobre os movimentos revolucionários pelo mundo. Todavia, os partidos revolucionários dos países do terceiro mundo tenderiam ao “pós-comunismo” e a democracia, alinhando-se à URSS ou à China apenas por interesses específicos. O Japão também poderia ser uma nova força. Portanto, todas essas forças teriam alguma influência no terceiro mundo, principalmente no sentido de buscas de novos mercados para o comércio. O terceiro mundo, nessa variação, teria mudado pouco, continuando instável, com movimentos revolucionários e muitos governos autoritários e tecnocráticos, os quais buscariam a estabilidade interna e o crescimento e estariam menos preocupados com o destaque no cenário internacional (Kahn e Wiener 1967, 255-6).

Os autores cogitam também um mundo no qual o comunismo seria dinâmico. Nele, os EUA apresentariam um recuo, assim como a URSS, ambos sendo alvos de desconfiança da Europa e do Japão. Este mundo se assemelha ao anterior, com a diferença de que o comunismo é uma força ideológica e revolucionária, fundamentando a revolução do terceiro mundo, com grande influência soviética. O terceiro mundo seguiria algumas variações do marxismo, alinhando-se à URSS e à China. Porém, não haveria consenso entre as nações comunistas, nem centralização. Um dos poucos elementos comuns seria a hostilidade com os EUA. A URSS teria boas relações com esses comunismos, podendo ter dois papéis: ou de líder ou de “estadista mais velho” de um movimento revolucionário importante. Os EUA seriam ainda uma potência, mas estariam isolados como Estado anticomunista, principalmente se falhassem em intervenções na Ásia e na América Latina. Esta rivalidade entre comunistas e os EUA não chegaria à guerra, restringindo-se às esferas política, moral e material (Kahn e Wiener 1967, 257).

A última possibilidade de mundo introspectivo seria o com a Europa ou com o Japão dinâmico. Isso significaria que a URSS e os EUA seriam ultrapassados em iniciativas políticas e em ambição pela Europa e/ou Japão. Seria, assim, um mundo plural, próspero e estável. O dinamismo europeu se manifestaria na disputa de influência sobre o terceiro mundo e pela manutenção da autonomia em relação aos EUA e à URSS. O Japão dinâmico tentaria influenciar economicamente a África e a América Latina e, mais fortemente, a Ásia (Kahn e Wiener 1967, 258).

A maior ameaça dessas três variações seria o desequilíbrio para a detente, que poderia ser fruto ou da desintegração do comunismo, isolando EUA e URSS, ou da dinâmica do comunismo, isolando os EUA, ou da ascensão da Europa e do Japão. Portanto, poderia ser o abalo do principal pilar que os autores consideram do mundo padrão: a coexistência pacífica. Isso também servia como uma reflexão interna para os círculos de decisão dos EUA, na qual, a postura defendida por Kahn e Wiener, é de ação internacional ao invés de um isolacionismo e de uma não participação das questões globais. Para Kahn e Wiener, afastar-se do mundo era, de alguma forma, deixar a questão da ordem internacional em mãos que talvez não soubessem como planejar e prever o futuro e, a correção disso, posteriormente, poderia ser praticamente impossível. A metáfora heurística sobre Roma e Grécia antigas, conforme os autores, já dera alguma lição sobre isso.

Haveria também os mundos perturbados, os quais são ou instáveis e multipolares ou de bipolaridade renovada na esfera do poder. A instabilidade poderia surgir dos conflitos de interesses e ambições nacionais ou pela influência ideológica renovada nos assuntos mundiais (Kahn e Wiener 1967, 258).

A primeira variação pensada pelos futuristas é a do comunismo desintegrado. Ou seja, o comunismo nãos seria uma força mundial importante. A potência mundial mais forte se caracterizaria por programas intervencionistas, buscando constituir um bloco disciplinado de países aliados ou conquistados. Os candidatos a essa posição poderiam ser a URSS, os EUA, alguma forma de união europeia ou o Japão. Esse mundo do comunismo desintegrado também poderia ser resultado de uma guerra sino-soviética. Para os autores, tal fato seria um golpe fatal no movimento comunista, podendo fragmentá-lo, com a sobrevivência de formas antagônicas de comunismo. Uma possibilidade disso seriam as diversas doutrinas revolucionárias dos países do terceiro mundo. Outra fonte possível para essa desintegração seria se, no caso de uma guerra entre China e EUA, a URSS se recusasse a apoiar a China e os europeus se recusassem a apoiar os EUA. Resultaria, com isso, um sistema multipolar que, além do comunismo desintegrado, apresentaria também tensão entre as potências. Neste contexto, o terceiro mundo poderia se desmantelar, principalmente por pressões externas e por intervenções. Poderia ocorrer também o colapso de novas nações, principalmente na África, devido a intervenções “neo-imperialistas” das potências ou de seus aliados sob o pretexto de restaurar a ordem (Kahn e Wiener 1967, 258-9).

Outro mundo perturbado possível é o de dinâmica comunista, que se manifestaria pelo poder ideológico renovado. Assim, apesar de interpretações diferentes, o comunismo estaria unido por pressupostos básicos. A fonte da unificação política poderia acontecer a partir da URSS e de uma nova liderança, romântica e jovem do partido comunista soviético, a qual buscaria construir uma sociedade forte e com uma política exterior revolucionária e disposta a correr riscos. Essa postura poderia levar a uma aproximação da China. Os autores viam a periferia mundial como uma área de fortalecimento do movimento. Se o lado capitalista não fosse efetivo, o comunismo poderia se destacar, parecer com uma realidade válida e se tornar uma onda do futuro (Kahn e Wiener 1967, 259-61).

Outra causa de instabilidade para o mundo poderia advir da Europa ou do Japão dinâmico. No caso da Europa, o fim dos conflitos no continente poderia significar a afirmação do poder europeu, podendo resultar em um afastamento da OTAN e até dos EUA e da URSS. Inclusive, poderia se estabelecer uma relação tensa nas fronteiras com os soviéticos, redundando em uma organização militar do continente. Nesse sentido, ocorreria uma escalada armamentista com a participação dos EUA e do Japão. A Europa também influenciaria o desenvolvimento, ainda que silencioso, do terceiro mundo. Se o Japão fosse o país dinâmico, Kahn e Wiener esperavam um novo esforço de mobilização da Ásia, para antagonizar com o comunismo e com a China. Essa participação japonesa apresentaria características ocidentais. Poderia se formar uma comunidade nuclear asiática, com fins de contenção. Tensões entre Japão e China poderiam ter início e os países poderiam buscar alianças (Kahn e Wiener 1967, 261-2).

Em comum entre essas hipóteses está o colapso definitivo da coexistência pacífica e sua substituição por uma tensão constante e pela competição acirrada e, em alguns casos, beligerante. É interessante nos atentarmos que a queda do comunismo seria acompanhada por uma perda de força dos EUA. Portanto, os autores não consideram que uma crise na URSS seria benéfica, reafirmando uma defesa implícita e indireta da coexistência pacífica, e, portanto, da URSS como o concorrente que estimula o crescimento estadunidense. Outro ponto significativo é que a ascensão do Japão e da Europa só seria possível por falhas políticas dos EUA e da URSS. Esse tipo de diagnóstico só visa reafirmar a importância da previsão e do planejamento elaborados e desenvolvidos.

Outra preocupação dos autores são as atitudes irracionais ou fora do sistema considerado padrão de comportamento internacional. Para os autores, essa questão era importante, pois havia exemplos recentes dela, como o nazismo e o comunismo stalinista, ou seja, de como, sob a égide da ideologia, decisões que atentavam contra o Estado foram tomadas. Um exemplo disso foram os massacres de judeus e de poloneses pelos nazistas, os quais elminaram potenciais fontes de mão-de-obra. Kahn e Wiener acreditavam que, até o ano 2000, o mundo poderia presenciar mais situações desse tipo, principalmente no terceiro mundo. Esses movimentos irracionais provavelmente brotariam das perdas das raízes culturais, da alienação individual, das tensões raciais, da ameaça nuclear e das crises econômicas, todos presentes e ativas nas sociedades em processo de industrialização e modernização e, logo, frutos do desenvolvimento da tendência múltipla. Porém, esses mesmos eventos poderiam ocorrer nas nações industrializadas, produzindo expectativas que poderiam verter em movimentos políticos messiânicos, totalitários e românticos (Kahn e Wiener 1967, 266-7).

Para ilustrar esse argumento, os autores recorrem à história por meio da metáfora heurística. Segundo Kahn e Wiener, o contexto da ascensão do Fascismo, do Nazismo e do Comunismo, poderia se repetir nessa nova fase de modernização e de industrialização. Conforme os autores, os movimentos messiânicos e totalitários surgem em um contexto de perda de valores e de alienação, os quais poderiam surgir dos processos de industrialização, de modernização e de insucessos políticos. Assim, a metáfora heurística se faz útil, conforme os futuristas, pois a manifestação desse tipo de movimento político não foge da tendência múltipla e da estrutura histórica que ela reflete. É, portanto, dentro do esquema construído pelos autores, um conjunto de processos que é possível prever e cogitar.

Os autores acreditavam que os problemas e as crises eram muito mais graves para serem solucionadas pelas estruturas e pelas práticas políticas existentes. A guerra nuclear, crises econômicas, as crises oriundas das formas possíveis de dicotomização, como negro-brancos, norte-sul, Ásia-Ocidente, ricos-pobres, seriam exemplos desses tipos de problemas que não encontrariam uma solução adequada pelas estruturas vigentes. Outra questão era também sobre a capacidade de as estruturas não conseguirem responder a tempo os efeitos dessas crises. Qualquer que fosse o motivo, a falta de respostas adequadas levaria as pessoas a buscarem as soluções em elementos românticos ou meta-políticos. Os autores não acreditavam no retorno ao fascismo ou ao comunismo, pois ambos estavam desacreditados ou fora de moda, mas acreditavam no sucesso de movimentos que manipulassem as massas, parecessem “modernos” e mobilizassem setores como as classes médias urbanizadas, os trabalhadores da sociedade industrial, as classes socialmente móveis e os artistas e intelectuais alienados. Esses movimentos também forneceriam respostas visionárias e morais, quase que como uma defesa por uma “nova” sociedade, na qual as crises seriam superadas, inclusive pelo emprego da violência (Kahn e Wiener 1967, 271-2). O maior problema desse tipo de visão, para os autores, são suas características messiânicas que desacreditam todo o conjunto de valores estabelecidos. Portanto, a eclosão desses movimentos poderia representar a derrocada de toda uma visão de mundo moderna, dificultando identificar ou entender que tipo de revolução é defendida e buscada (Kahn e Wiener 1967, 276-7).

Um dos problemas, segundo os autores, é o otimismo ocidental, fruto da crença na razão e no progresso, que tende a desconsiderar os acontecimentos improváveis e não cogita que as catástrofes do passado poderiam acontecer de forma semelhante, preferindo categorizá-las como aberrações, ao invés de entendê-las como características recorrentes na história (Kahn e Wiener 1967, 316-7).

Outro caminho para a situação catastrófica seria a disseminação dos artefatos nucleares. Portanto, para os autores, especular sobre o futuro passaria por pensar as possibilidades de utilização dos sistemas nucleares e considerar que a guerra poderia começar acidentalmente ou irracionalmente, assim como poderia ser uma ação racional ou deliberada. Os autores sabem da dificuldade em elaborar cenários de guerra nuclear dentro de qualquer contexto, não só pela questão tecnológica, mas também pelas mudanças na concepção da guerra nuclear e das armas nucleares. Porém, para os autores, o que evitava o uso das armas nucleares definitivamente era a coexistência pacífica (Kahn e Wiener 1967, 317-8).

Uma das ameaças à situação de equilíbrio seria a própria necessidade de mantê-lo, pois enquanto o equilíbrio do terror desencorajava as potências conservadoras, uma potência ousada poderia aproveitar a cautela que o equilíbrio gera como uma oportunidade ou um escudo. O efeito desse tipo de atitude seria o fim da coexistência pacífica e competitiva, o que impediria desenvolvimentos como a sociedade pós-industrial (Kahn e Wiener 1967, 319-32).

Outra grande fonte de perturbações seria os problemas econômicos, principalmente os que interrompessem os desenvolvimentos econômicos tal como planejados. O resultado disso, além dos prejuízos econômicos diretos e das expectativas econômicas não atendidas, que impediriam a concretização da sociedade pós-industrial, seriam também as agitações populares, as quais de diversas formas, incluindo movimentos políticos redentores, tanto em nações desenvolvidas, quanto nas não desenvolvidas. Movimentos de negação da razão também poderiam acontecer nos Estados menos desenvolvidos. Portanto, o contexto econômico poderia concretizar os movimentos de cunho messiânico decorrentes dos insucessos da industrialização e da modernização (Kahn e Wiener 1967, 333-4). Os problemas econômicos poderiam gerar ainda problemas morais, frutos da posição das elites das nações subdesenvolvidas em estágios que não condizem com o resto do país. Ao ter um grupo em um padrão alto, as políticas de desenvolvimento talvez não parecessem tão efetivas frente aos desapontamentos gerados. Não haveria espaço também para falha de políticas, já que elas poderiam representar estagnação ou até mesmo retrocesso. O resultado disso poderiam ser, novamente, os movimentos políticos radicais (Kahn e Wiener 1967, 364).

A dicotomia mundial, para os autores, dificilmente acabaria em conflito, pois os países subdesenvolvidos possivelmente não possuiriam recursos econômicos e militares para provocar ou atacar as nações desenvolvidas. Todavia, ataques irracionais poderiam ocorrer entre as nações subdesenvolvidas, principalmente se alguma se sentisse insegura. Nesses mesmos casos, os autores também cogitam a possibilidade de ataques suicidas contra nações desenvolvidas. Outro problema é que as tentativas para prevenir esses tipos de acontecimentos poderiam soar como neocolonialistas e, então, os motivos da guerra poderiam ser justamente por essas políticas (Kahn e Wiener 1967, 364-5).

De qualquer forma, os autores acreditam que o estudo da violência é necessário, para se ter controle das evoluções das guerras. Além disso, seria provavelmente uma situação violenta que antecederia uma mudança no sistema. Portanto, conhecer como a guerra poderia começar e continuar seria ter, de alguma forma, o controle dos caminhos de transição, e, quando a guerra se tornasse inevitável, seria saber como usá-la para buscar os objetivos desejáveis. Entrar em uma guerra sem conhecê-la seria ter que aceitar suas consequências sem poder influenciá-las (Kahn e Wiener 1967, 383-4).

Sem ser a guerra, outra mudança política surpreendente e inesperada seria o desenvolvimento do sistema de blocos. Os blocos que os autores consideram possíveis para o ano 2000: América do Norte (EUA-Atlântico Norte ou EUA-Atlântico-Pacífico), Europa, América Latina, Soviético, Africano, Árabe, Indiano, Chinês e outros. Cada um deles escolheria sua forma de governo e seus métodos de sucessão (Kahn e Wiener 1967, 373-6). O desenvolvimento da ONU também poderia representar uma forma de organização mundial com diversos desenvolvimentos. Uma forma que poderia decorrer da ONU seria a coletividade de pequenas potências. Na opinião dos autores, esse seria o único arranjo neutro possível que as grandes potências permitiriam arbitrar questões mundiais. Porém, essa coletividade poderia conter novos estados, sociedades poucos industrializadas e modernizadas e governos instáveis, ou seja, algumas nações da América Latina estariam nessas categorias. Essa configuração poderia dificultar a disposição das grandes potências a se submeter aos julgamentos dessa coletividade. Assim, para os autores, seria mais esperado e prudente às potências confiar tal tarefa às nações pequenas e avançadas, como Suécia, Irlanda, Noruega, Dinamarca, Finlândia e alguns países balcânicos (Kahn e Wiener 1967, 380-1).

Outra possibilidade, essa extrema, seria a do recuo da civilização, devido ao desaparecimento das armas de destruição em massa.  O retrocesso civilizacional poderia resultar também de uma guerra, a qual impossibilitaria a continuidade da fabricação ou da manutenção de armas de destruição em massa (Kahn e Wiener 1967, 383-4).

Essa série de previsões de Kahn e Wiener não foram elaboradas para funcionar como acertos ou erros sobre o futuro, pois elas têm um caráter dissuasivo e até retórico. Elas são previsões e planejamentos simultaneamente, pois são conjecturas e especulações sobre o futuro, feitas com alguma base pretensamente metodológica, porém, são também planejamentos, pois essas possibilidades de futuros possuem valores pragmáticos implícitos do que deve ou não ser buscado e servem como guias que devem ser seguidos conforme o que se busca.

O planejamento e a previsão dos autores no O ano 2000 é a manutenção da coexistência pacífica, a qual é mantida pela relação da ameaça da guerra com os meios e as predisposições para evitá-la. Tudo isso redunda em um mundo competitivo vantajoso para justificar a busca de crescimento econômico e militar dos EUA, assim como a busca por influenciar politicamente, economicamente, culturalmente e militarmente outras nações e manter, sob sua tutela, países, como alguns europeus, latino-americanos, africanos e asiáticos. Todavia, esse ambiente de disputa não deveria se tornar multipolarizado e complexo, mas deveria compreender um antagonista, que, para os autores, deveria ser, preferencialmente, a URSS. A América Latina aparece com uma região coadjuvante e que é enquadrada e analisada como uma área de interesse dentro do guarda-chuva de influência estadunidense, mas que não chegaria a constituir um bloco coeso. Portanto, o planejamento e a previsão servem como elementos para orientar, mas também para justificar as decisões dos responsáveis, atribuindo-as como a melhor escolha frente a outras.

Assim, o interesse de estudos dessa temática sobre o futuro deve ser menos buscar se acertaram ou erraram e mais, primeiramente, como um conjunto de elementos para entendermos o tempo passado a partir do universo de elementos que orientavam a interpretação de mundo, os quais aparecem projetados nas visões de futuro. Porém, esses estudos também servem, de forma mais específica, para entendermos como se constituiu uma política estadunidense agressiva ao longo da Guerra Fria, com elementos, conceitos e estruturas de argumentação e pensamento que parecem até hoje presentes nos critérios de tomadas de decisão e na justificativa delas, tanto na política interna, quanto na política internacional.

 

 

 

 

 

Referencias

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[1] Entendido como a relação da estimativa aproximada do total de número de horas trabalhadas e do valor médio de bens e serviços que são produzidos por hora de trabalho (Kahn e Wiener 1967, 123).

[2] Para mais detalhes sobre a sociedade pós-industrial apresentada por Kahn e Wiener: Cf. Cap. 4 Kahn e Wiener 1967 e 1968; Cf. Cap. 4, Andrioni 2010; Cf. Cap .4., Andrioni 2014.

[3] O conceito de “talismânico” foi retirado, de alguma forma, dos trabalhos de Toynbee, quanto o historiador inglês usa o termo para descrever a busca das civilizações não-ocidentais por valores ocidentais. Dessa forma, a busca por ideais científicos e democráticos não existiria pelos méritos intrínsecos deles, mas por uma suposta eficiência, real ou imaginária, a qual assemelharia tais ideais a talismãs que dotariam “seus usuários” com poder. Kahn e Wiener entendem, então, que essas sociedades tradicionais recorrem ao socialismo também como um talismã, Toynbee 1963, 157.

[4] Esse tema, de como evitar ou iniciar uma guerra nuclear, como lutá-la, como sobreviver a ela e, depois, reconstruir-se, foi tema do primeiro livro de Kahn, o On Thermonuclear War, de 1960.



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