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Voluntariado e Trabalho Intelectual: Um Diálogo com as Refugiadas Sírias na Turquia

Voluntariado y Trabajo Intelectual: Un Diálogo con las Refugiadas Sirias en Turquía

 Volunteering and Intellectual Work: A Dialogue with Syrian Refugees in Turkey

 

 

 

Gabriela Cavalheiro

Doutora

King’s College

London, Inglaterra

gabriela.cavalheiro@kcl.ac.uk

 

 

 

Resumo: Depois de alguns meses em contato direto com refugiadas sírias na Turquia, este ensaio pretende resumir, de forma breve e objetiva, alguns pensamentos ou conclusões – temporários ou não – sobre estes meses de convívio e trabalho conjunto. Escrito sob a perspectiva de uma acadêmica versada nas teorias de gênero e na crítica feminista, nele coloco em diálogo algumas reflexões teóricas e práticas sobre os efeitos e o impacto do trabalho intelectual na prática do cotidiano.

Palavras-chaves: Voluntariado, Gênero, Militância, Academia, Teoria.

 

Resumen: Después de algunos meses en contacto directo con refugiadas sirias en Turquía, este ensayo pretende resumir, de forma breve y objetiva, algunos pensamientos o conclusiones-temporales o no- sobre estos meses de convivencia y trabajo conjunto. Escrito bajo la perspectiva de una académica versada en las teorías de género y en la crítica feminista, en él coloco en diálogo algunas reflexiones teóricas y prácticas sobre los efectos y el impacto del trabajo intelectual en la práctica de lo cotidiano.

Palabras clave: Voluntariado, Género, Militancia, Academia, Teoría.

 

Abstract: This essay is a short response to my experience in the field, working with Syrian refugees in Turkey. My aim is to put together, in a rather informative way, theory and practice within gender studies feminist criticism in how gender policies actually target women in conflict contexts. More than a record of experiences in the field, this essay is an intellectual exercise and a space for contemplation.

Keywords: Humanitarianism, Gender, Militancy, Academia, Theory.

 

 

Fecha de recepción: 28 de abril de 2017.

Fecha de aceptación: 25 de mayo de 2017.

 

 

Desde a graduação tenho me especializado na categoria gênero como categoria de analise historia e, por consequência, a crítica feminista sempre foi parte componente das minhas leituras e discussões. Embora seja historiadora com foco no passado quando se trata do trabalho acadêmico, escrevo para jornais e outras mídias já ha alguns anos, colocando em diálogo o conhecimento acadêmico e a vivência cotidiana, das pequenas práticas do dia-a-dia ao campo da representação cultural.

Durante a pesquisa doutoral, desenvolvida junto ao King’s College London, Inglaterra, tive a oportunidade de voluntariar com uma organização britânica que oferece auxilio institucional e emocional a mulheres e meninas que estejam sofrendo ou sofreram violência doméstica e/ou sexual. Foi a primeira vez em que pude colocar na prática o conhecimento acumulado através da pesquisa acadêmica com a categoria gênero, os estudos da sexualidade e a teoria queer. Em Londres, Organizações não-Governamentais e instituições de caridade dividem-se entre as diferentes regiões administrativas da capital, o que significa que suas áreas de atuação  são bastante contextuais. A organização com a qual trabalhei, intitulada Women and Girls Network, trabalha diretamente com comunidades de maioria muçulmana, o que explica minha experiência prévia em aliar os estudos de gênero (de matriz pós-moderna) ao contexto de mulheres e meninas de diferentes matrizes culturais, matrizes estas muitas vezes quase ininteligíveis para uma mulher-sujeito latino-americana[1].

Passei os três últimos meses do corrente ano de 2017 residindo em Istanbul, capital turca, e naquele país tive a oportunidade de entrar em contato com refugiados sírios atualmente residindo na região sudoeste, numa cidade chamada Izmir. Os refugiados concentrados em campos irregulares e rurais na região sul e sudoeste da Turquia têm um perfil bastante distinto daqueles que fazem travessias através do território grego com fins de chegar à Europa central. A Turquia atualmente é o país com maior numero de refugiados sírios, são cerca de três milhões, e segundo o UNHCR, agência da ONU (Organização das Nações Unidas) para os refugiados, em torno de noventa por cento destes refugiados vivem fora dos campos oficiais[2]. Isto significa que os refugiados se concentram não apenas nos campos oficiais, administrados pelo governo turco com auxílio da ONU e de outros órgãos internacionais, mas também em regiões urbanas e campos rurais.

Diferentemente do que acostumou-se observar na mídia, os refugiados na Turquia são, em sua maioria, trabalhadores rurais com a pretensão de retornar as suas casas e terras na Síria. Por esse, e outros fatores, são milhares de famílias espalhadas por zonas rurais de diferentes cidades turcas e foram os refugiados em Izmir que tive a oportunidade de conhecer bem de perto, criar círculos de conversa e começar um projeto de auxílio às mulheres e meninas cuja vida menstrual está ativa. O objetivo das visitas era conhecer de perto as condições sanitárias dos campos rurais na região, focando na saúde menstrual de mulheres e adolescentes, e com o objetivo de criar alternativas contextuais para as condições precárias em que os campos se encontram.

Acompanhada de um primoroso interprete sírio, a quem fui apresentada através de voluntários independentes locais, fomos ate diversos campos, cujos moradores M. já possuía uma forte relação  interpessoal. A estratégia de aproximação foi bastante simples: me apresentar para as mulheres nos campos, organizarmos rodas de conversa, também conhecidas no meio humanitário como “espaços seguros” (“safe spaces”, em tradução livre) em tendas e criar um contexto seguro para que elas pudessem se colocar à medida em que se sentissem a vontade. Curiosamente, inclusive para os voluntários que trabalham na região já há meses, mas cujo foco nunca fora a saúde feminina, as conversas tomaram forma rapidamente e em um dia foram centenas de mulheres em diferentes campos. Em uma semana foram sete campos visitados, posteriormente mais cinco.

Com acesso bastante restrito a rede pública de saúde por questões burocráticas e, as vezes, políticas, as refugiadas vivem uma constante busca por formas alternativas de evitar gravidez, contornar a falta de acesso a absorventes íntimos, higienização das crianças, enfim, toda a sorte de problemas decorrentes da falta de saneamento básico. Quando não ha instituições dedicadas ao cuidado de mulheres e adolescentes em situações de risco ou crise, como aquela com a qual voluntariei em Londres ou as dezenas de organizações na Grécia, a presença das refugiadas é praticamente inexistente. Colocadas de lado em detrimento de questões ditas mais “emergenciais”, como a situação das crianças ou o acesso a alimentação e etc., as mulheres são as que mais sofrem na pirâmide social do refugiado com relação a politicas de auxílio.

Infelizmente é comum encontrar voluntários independentes sem nenhum preparo ou sensibilidade cultural em contato direto com refugiados, promovendo um trabalho que pode, em tempos, colocar a relação entre os refugiados e as instituições de auxilio em risco. Contudo foi a total falta de suporte às mulheres e meninas adolescentes que mais me chocou. Enquanto na Grécia, onde dezenas de organizações se instalaram junto à facilidade politica e burocrática promovida pela União Europeia, as mulheres dentro e fora dos campos oficiais recebem cada vez mais apoio e suporte para questões de saúde física e mental, na Turquia a situação das refugiadas sírias é cada vez mais agravante.

Durante as conversas, descobri que planejamento familiar é de responsabilidade das mulheres; havia muitas que, por conta própria, procuraram auxilio para compra de pílulas anticoncepcional ou ate mesmo o uso do Dispositivo Intrauterino (DIU). Além do trabalho cotidiano com a limpeza das tendas, as vezes dos próprios campos, e do cozimento das refeições, cabe a elas também cuidar das crianças e de si mesmas, a manutenção dos seus corpos não segue sob responsabilidade de nenhum medico ou instituição.

Como acadêmica, acostumada ao trabalho intelectual, é difícil não tentar rastrear os discursos que questionamos com tanta frequência nas rodas universitárias, discursos que problematizamos com facilidade, mas que, na vida real do convívio cotidiano, não funcionam da mesma forma. O grande desafio nesse cenário é perceber que o discurso, que também é prática, precisa ser desconstruído para fazer algum sentido contextual. Criar alternativas que promovam o bem estar das mulheres, por exemplo, na maioria das vezes depende de soluções que coloquem seus parceiros de lado, por exemplo, quando da criação de espaços seguros (“safe spaces”) onde somente mulheres podem conviver.

Se acompanhássemos os argumentos mais coerentes das políticas de igualdade de gênero, a criação de espaços exclusivos para mulheres, por exemplo, soaria incoerente. Contudo, o que muitos voluntários tem dificuldade de entender é que a projeção de discursos de gêneros ainda desconhecidos àquela comunidade, ou sociedade, pode deixar o ambiente ainda mais hostil. O que tem sido cada vez mais emergente e tem tido grande êxito nos campos de refugiados em diferentes países são os chamados espaços seguros femininos (“female safe spaces”, em tradução livre). Nesses espaços, as mulheres, e também crianças, podem desfrutar de uma certa privacidade, onde assuntos como saúde reprodutiva, abuso domestico e sexual, entre outros podem ser elaborados e trabalhados.

Segundo a ONU, a situação de deslocamento de refugiados impulsionou um verdadeiro “boom” da violência domestica e sexual, tanto entre as próprias famílias em deslocamento, quanto por parte dos voluntários que, infelizmente, as vezes se aproveitam da vulnerabilidade dos refugiados para praticar o assédio. Esses espaços seguros funcionam como refugio, mas também como lugar de empoderamento, onde as mulheres tem oportunidade de exercer alguma prática fora das tarefas domesticas e também receber tratamento psicológico, e as vezes ate medico. Durante minhas visitas e as conversas nas tendas, ficou bastante claro que, uma vez que seja colocado pra elas que a conversa será sobre mulheres e para mulheres, está formado o espaço seguro: hijabs são colocados de lado, crianças são amamentadas livremente e toda sorte de comportamentos que ela sentem mais a vontade quando apenas rodeadas por outras mulheres.

Minha presença, de certa forma, concretizou uma espécie de figura de autoridade, que permitiu que os espaços fossem respeitados e em nenhum momento os homens tiveram alguma objeção a minha presença. Compreender que contextos são distintos e exigem sensibilidade cultural mais do que um conhecimento intelectual e laureado sobre o mesmo faz com que as coisas, em campo, corram de forma menos invasiva.

Outro grande desafio foi entender que havia, ali, um senso de sororidade, de compartilhamento, que escapa qualquer definição intelectual. É crucial que reconheçamos, na prática, as diferentes formas que os discursos intelectualizados podem tomar, lembrando-nos sempre que discurso é prática. Além disso, é preciso se despir de algumas amarras teóricas pra conseguir apreender a realidade do trabalho no campo ou “na estrada”, que é presente, como diz Gloria Steinem, se o objetivo for resultado efetivos e contextuais. Reconhecer a multiplicidade de um dado cenário social alivia tensões e coloca à prova nossos próprio impulsos de pré-julgamentos. Um exemplo foi perceber, nos campos, que não há padrão com relação ao modo como os casamentos acontecem ou faixa etária das mulheres casadas. Havia meninas de quinze anos com dois filhos no colo, casadas, e meninas de quinze e mais velhas solteiras (todas com o ciclo menstrual ativo). Em termos generalizantes, sim, a grande maioria das mulheres casadas e com filhos era jovem entre dezoito e trinta anos. Ficou claro que afirmações do tipo “naquelas comunidades muçulmanas as meninas casam-se tão logo menstruam” não se encaixam e tornam-se ficção.

Talvez as questões levantadas nesse breve ensaio possam soar primarias ou ate mesmo inocentes e obvias a um leitor treinado, mas o trabalho no campo, no fronte da crise e das situações de risco, coloca a prova toda forma de conhecimento acumulado, não importa o quão experiente a pessoa seja. Mais importante, que as experiências discutidas aqui possam inspirar, dentro dos limites do alcance deste texto, a reflexão do nosso próprio fazer acadêmico, do alcance e entraves do nosso trabalho, revelando nossas limitações como sujeitos históricos e profissionais. Que estes parágrafos não sirvam apenas como espaço de reflexão do que precisa ser mudado ou das dificuldades de se colocar em prática o exercício intelectual acadêmico, mas, acima de tudo, que seja um lugar de troca e afirmação do potencial do nosso trabalho fora do laboratório e da sala de aula.

 





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