Apresentação do dossiê: “Direitas no novo fin-de-século

 

 

 

Em 1948 George Orwell apresentou seu pessimismo em relação às possibilidades de futuro traçadas no imediato pós II Guerra Mundial, através de sua obra 1984. Talvez a cena que melhor sintetize sua expectativa perante o futuro seja quando O’Brien explica para Winston Smith, em um intervalo da sessão de torturas contra Smith, sua concepção de humanidade. Diz O’Brien: “Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre.” Era uma força opressiva univetorial, representada pelo trauma e pela ameaça da conversão da sociedade em formato militarizado.

Nos finais do século XX e primeiros anos do século seguinte, as relações de força se tornaram mais complexas, e os meandros de exclusão, submissão e dominação se sofisticaram, não sendo tão concretos quanto uma bota, embora exerçam pressão semelhante contra nossos corpos, e cérebros. Diante da aceleração da circulação de informação e mercadorias e capitais, acompanhadas, não com a mesma permeabilidade, do trânsito de pessoas pelas fronteiras internacionais, a autonomia dos Estados foi fragmentada através da ameaça da perda de investimentos internacionais. Houve o impedimento de se realizar a opressão física e explícita narrada por Orwell. Por outro lado, o impedimento só fez tornar-se mais sofisticada e ameaçadora, diante do risco imposto à noção de pureza, criada pelas raízes nacionais.

Conforme apresenta Bauman em “O mal estar da pós Modernidade”, a categoria de “fora do lugar” se acentua, reforçando a narrativa de corrupção e afronta à pureza de grupos fundamentalistas, ou radicais – que na etimologia de ambos os termos fazem referência a pureza, e raiz. Imigrantes, mulheres, gays, lésbicas e transexuais, negros, indígenas entre outros grupos historicamente marginalizados são vistos, novamente, como perigo à integridade da ordem, seja ela social, política, nacional. Com recursos mais sofisticados, através da internet e democratização do acesso e da criação da informação, da ampliação da abrangência midiática e quebra do monopólio das grandes corporações, foi possível a integração transnacional de grupos de extrema-direita com efetividade inédita. Tais movimentos permitem a afronta da institucionalidade e ameaça do Estado de direito, comprometido com acordos internacionais, entre os quais a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e abre espaço para experiência políticas radicais de direita, chancelada pelo voto democrático, não sem participação de recursos que fogem aos padrões ético, tais como ataques pessoais e as fake News.  

Diante desse movimento internacional de crescimento dos extremismo de direita em seu formato institucionalizado, a Revista nuestrAmérica apresenta o atual número, com preocupação. As ameaças de emergência de fascismo atualizado ou do neonazismo, o poder das corporações midiáticas buscando exercer influências no campo político, e o constante risco ao jogo democrático são pautas abordadas pelas investigações presentes neste número.

A presente edição começa com um artigo na seção Academia militante, intitulado "Direito à vida: nosso principal acordo". Sua autora, Lorena Vargas Ampuero, doutoranda em História na Universidade Nacional de Comahue, Argentina, investiga o fenômeno do fascismo nas redes sociais relacionadas às demandas do povo mapuche. Também nesta ocasião, foi publicada uma entrevista com Wallace Andrioli Guedes, doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro. Os temas discutidos são a atual situação política no Brasil e o cenário internacional. Além disso, a entrevista cobre alguns processos de alta tensão na política regional relacionados a ascensão das novas direitas, o decréscimo dos governos progressistas latino-americanos, etc.. Esta entrevista foi conduzida pelos doutores Felipe Cazetta e Renato Dotta.

Francisco Carlos Teixeira, professor Titular da Universidade Federal do Rrio de Janeiro, Brasil, no artigo O Discurso de Ódio: análise comparada das linguagens dos extremismos”, analisa as definições do fascismo e as formas encontradas pela extrema/ultra direita em atualizar os discursos e práticas excludentes, porém vinculados ao jogo democrático e institucionalizado. Através da romantização do passado, tanto nos fascismos quanto nos extremismos de direita contemporâneos, os grupos e partidos portadores de tais projetos arregimentam militantes/ eleitores através de uma moralidade frouxa e superficial, e práticas bastante concretas de violência e exclusão.

Sob a via da direita neoliberal apresentamos o artigo de Fabrício Ferreira, Mestrando em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil, “Folha de S. Paulo, O Globo e a afirmação de uma direita neoliberal na Nova República”, lugar de exames sobre os comportamentos editoriais de dois dos mais influentes periódicos impressos do Brasil. Assim, há o esforço de análise em posicionar as perspectivas de ambos dentro do campo neoliberal e suas atuações para influenciar as tomadas de decisões e agendas políticas brasileiras ao longo da década de 1990.

Ainda no espectro político brasileiro, Felipe Cazetta, professor da Universidade Estadual de Montes Claros – Campus São Francisco, no texto, “Mito, Moralidade e “Politização” no cenário de radicalização do conservadorismo brasileiro”, se detêm no processo de colapso político institucional durante o governo Dilma Rousseff, e a ascensão da figura do mito salvador. A partir das “jornadas de junho” de 2013, o autor investiga os elementos que deflagraram a crescente mobilização conservadora e de extrema-direita que assola o Brasil.

Azucena Citlalli Jaso Galvan, Mestra em História Social pela Universidade de São Paulo São Paulo, Brasil, em “O anticomunismo à mexicana: paramilitarismo e campanhas de rumores (1964-1976)” passa em revista à presença de grupos de extrema-direita e suas complexas relações com o governo Mexicano durante o período mais intenso da Guerra Fria, finais dos anos 1960 e década de 1970. Nesse contexto, tais grupos da direita radical puderam articular projetos transnacionais com referências e anseios políticos que se irradiavam para outros países da América Latina e Caribe, revelando a proposta de capilaridade desses grupos, anterior ao advento da internet e intensificação da globalização.

Fechando o dossiê, Pedro Carvalho Oliveira, no texto, “Rock e neofascismos na América Latina”, problematiza as nuances do neofascismo em suas distintas ramificações e vertentes. A partir destas apresentações há a proposta de captar como tais projetos de extrema-direita põem-se a influenciar a cena do rock na América Latina com letras revestidas de mensagens de pureza racial e retidão ou valor do indivíduo perante o grupo.

Desejamos a todas e todos uma boa leitura e postura de combate contra os extremismos de direita que assolam nossos países.

 

 

 

 

Dr. Felipe Cazetta

Dra. Maria Aparecida de Aquino

Dr. Renato Alencar Dotta

Editor temático

Editora temática

Editor temático

 

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