Entrevista com o Wallace Andrioli Guedes

Felipe Cazetta; Renato Dotta

Doutor em História Linha de pesquisa Contemporânea II pela Universidade Federal Fluminense Professor de História Moderna e Contemporânea da Universidade Estadual de Montes Claros Minas Gerais, Brasil, Universidade Estadual de Montes Claros, Brasil , Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo - USP (bolsista FAPESP) Mestre em História Social (bolsista CNPq), bacharel e licenciado em História pela USP Trabalhou como historiador no museu municipal da cidade de Mauá (SP), museu municipal da cidade de Mauá (SP), Brasil



Resumo

Esta é uma entrevista com Wallace Andrioli Guedes, Doutor em História Social. Os temas discutidos são a atual situação política no Brasil e o cenário internacional. Você também verá alguns processos de alta tensão na política regional. Esta entrevista foi conduzida pelos doutores Felipe Azevedo Cazetta e Renato Alencar Dotta.

Received: 2019 January 20; Accepted: 2019 January 20

5519. 2019 ; 7(13)

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Felipe Azevedo Cazetta e Renato Alencar Dotta (FC/RD): É possível fazermos uma conexão entre a vitória de Jair Bolsonaro para presidente do Brasil e a ascensão da direita e extrema direita em outros países, como nos EUA e na Europa?

Wallace Andrioli Guedes (WAG): Penso que sim, considerando, claro, as especificidades de cada caso. Parece haver uma onda internacional de avanço da extrema-direita, mas as razões de sua força em cada país variam. Na Europa, são razões centrais a mais recente crise do capitalismo e as ondas migratórias produzidas sobretudo pelas guerras da Síria e da Líbia. Além disso, países como Hungria, Polônia e Ucrânia fizeram parte do bloco socialista por décadas, durante a guerra fria, daí o enraizamento de certo sentimento anticomunista. No caso dos Estados Unidos, há também a questão migratória (encarnada principalmente pelos imigrantes latino-americanos, especialmente mexicanos, alvo do prometido muro de Trump) e os efeitos da crise capitalista (o desemprego que atinge os trabalhadores brancos estadunidenses em estados interioranos), mas penso que também influencia uma espécie de backlash ao governo Obama, que, apesar dos muitos limites, abraçou bandeiras de minorias sociais e promoveu mudanças vistas como socialistas (Obamacare) por grupos ultraliberais (o movimento Tea Party, por exemplo). O caso brasileiro tem no antipetismo sua principal matriz, sentimento alimentado pelas inúmeras denúncias de corrupção durante os governos Lula e Dilma e sobretudo pela atuação inovadora, mas espetacular (nesse sentido, em profunda conexão com uma imprensa antipetista) e partidarizada, da Operação Lava Jato. Ao mesmo tempo, não deixam de atuar fatores presentes em outras realidades, como a crise econômica (que contribuiu para o colapso do governo Dilma) e a reação a avanços de movimentos identitários, tratados como inimigos por Bolsonaro. Já o anticomunismo, aqui, é significativamente anacrônico, ainda que possua algum lastro histórico considerando a forte presença desse sentimento em outros momentos da história brasileira (notadamente as décadas de 1930 e 1960).

FC/RD: A pesquisadora francesa Maud Chirio afirmou que a chegada de Bolsonaro à presidência é o fim da Nova República, já que ela acredita que colocar partidos e movimentos de esquerda na ilegalidade. O senhor concorda com essa afirmação?

WAG: Formalmente não há nenhuma ruptura, como a que marcou o início da Nova República (fim de uma ditadura, promulgação de uma nova constituição). No entanto, essa afirmação me parece lógica quando consideramos que Bolsonaro é o primeiro presidente eleito desde 1989 com um discurso de negação de valores centrais da Constituição de 1988. A defesa irrestrita dos direitos humanos e do meio ambiente, o respeito à pluralidade de pensamento e à liberdade de expressão, a relação harmônica com as instituições republicanas... mesmo com idas e vindas discursivas, declarações impactantes seguidas por pedidos de desculpas, o bolsonarismo, na sua matriz mais sincera, despida portanto das aparências necessárias ao exercício do poder, nega, ou ao menos confronta, esses valores.

FC/RD: Integralismo, Estado Novo, udenismo, Jânio Quadros, ditadura militar, Collor, Centrão, Enéas. Qual a especificidade do bolsonarismo dentro do espectro histórico da direita brasileira?

WAG: Acho que há um pouco de alguns desses movimentos e personagens, mas não necessariamente repetindo-os de forma exata. Vejo em Bolsonaro, por exemplo, um salvacionismo moralista já presente em Jânio e em Collor, bem como uma retórica nacionalista que remete a Enéas Carneiro. De certa forma, também, sua eleição é a culminância de um processo de denuncismo da corrupção petista, encabeçado sobretudo pelo PSDB, que faz lembrar o udenismo. E há, claro, o saudosismo da ditadura militar no próprio discurso do presidente. No entanto, ao mesmo tempo, ele reivindica um liberalismo econômico radical que o afasta das ideias de Enéas e mesmo de boa parte dos governos militares. E possui uma base social que não pode ser desprezada, constituiu de fato um movimento em torno de sua imagem e dos valores que defende, algo ausente nos casos de Jânio e Collor. É nesse sentido que Bolsonaro me parece uma novidade na direita brasileira, pela capacidade de organização (a internet, como sabido, foi um meio fundamental para isso), mesmo que a partir das forças a princípio diversas que compõem o bolsonarismo: intervencionistas, evangélicos neopentecostais, monarquistas, liberais, integralistas...

FC/RD: A partir dos anos 2000, o Brasil passou a ter um protagonismo no cenário político internacional, com participações importantes em blocos como a UNASUL e os BRICs. O que podemos esperar do governo Bolsonaro em termos de projeção brasileira na América Latina e no mundo?

WAG: Bem, me parece difícil prever, mas algumas perspectivas não são muito animadoras. A retórica anti-Venezuela e Cuba, por exemplo, instala uma situação de conflito do Brasil com países historicamente próximos. O excessivo pró-americanismo, por outro lado, ao mesmo tempo que, em tempos de governo Trump, reforça a postura de afastamento dos dois países citados anteriormente, leva o Brasil a assumir posições na geopolítica internacional que tendem a lhes ser prejudiciais, como aquela envolvendo a mudança da embaixada em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém. Penso que precisamos observar até que ponto o governo Bolsonaro colocará a ideologia à frente do pragmatismo. As forças políticas tradicionais tenderiam a puxá-lo para essa segunda postura, mas os radicais bolsonaristas, dentre eles o novo ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, parecem tender à primeira.

FC/RD: Alguns analistas, como o britânico Timothy J. Power em recente entrevista à BBC, têm comparado a presidência e sobretudo a persona política de Jair Bolsonaro com as de Fernando Collor. Ambos tinham carreiras no establishment político, mas foram eleitos como candidatos com retórica antissistema. O que o senhor acha dessa comparação?

WAG: Novamente, acho que a comparação faz sentido, mas que há diferenças significativas. Collor foi um fenômeno mais localizado, específico das eleições de 1989, as primeiras com voto direto para presidente desde 1960. Havia ali um encantamento pela figura do jovem candidato, combatente contra a corrupção, portador de uma aparência de modernidade para a política brasileira após 25 anos de generais no poder, seguidos por Sarney. Falo de aparência porque, claro, como se sabe, Fernando Collor de Melo era parte de uma família politicamente tradicional, não só em Alagoas, mas com atuação nacional expressiva. Enfim, sua popularidade era circunstancial, se esvaziando com as medidas impopulares postas em prática e as denúncias de corrupção que vieram à tona. É claro que não dá para prever o futuro do governo Bolsonaro, mas o atual presidente me parece ter um enraizamento consideravelmente maior em setores da sociedade que Collor. Arriscaria dizer que o bolsonarismo é uma força política que veio para ficar, pois se estruturou a partir de movimentos atuantes desde 2013/2014, que contribuíram para a derrubada de Dilma Rousseff e se tornaram atores políticos significativos, na internet, nas ruas (demonstrando grande capacidade de mobilização) e no Parlamento. Há, claro, a possibilidade de fracasso retumbante de seu governo e daí veríamos o quanto ele de fato é popular. No entanto, há também o espantalho do antipetismo. Esse é um fator que, a meu ver, também deve ser considerado na comparação com Collor. A esquerda do início da década de 1990, encarnada principalmente no PT, mobilizava esperanças em temas como o combate à corrupção. Quase 30 anos depois, com o país já tendo passado pela experiência – frustrante, ao menos no quesito específico da ética na política – dessa esquerda no poder, pesa sobre ela enorme rejeição, que Bolsonaro soube e sabe usar muito bem.


Notas
*.

fn1Wallace Andrioli Guede es Doutor em História Social, Universidade Federal Fluminense e Pós-doutorando, Universidade Federal de Juiz de Fora, Brasil. Professor Visitante, Universidade Federal de Juiz de Fora. Bolsista do Conselho de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES, Brasil)

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