Rock e neofascismos na América Latina

Rock y neofascismos en América Latina

Rock and neo-fascism in Latin America

 

Pedro Carvalho Oliveira

Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação

em História da Universidade Estadual de Maringá.

Integrante do Laboratório de Estudos do Tempo Presente (LabTempo-UEM),

do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET-UFS)

e do Grupo de Pesquisa Política, Estado e América Latina (GPPEAL-UEM).

Agência de fomento: CAPES.

Maringá, Paraná, Brasil

pedro@getempo.org

ORCID: http://orcid.org/0000-0003-0393-4143

 

 

Resumo: O rock neofascista é um gênero musical próprio a movimentos alinhados a este ideário político, por meio do qual seus compositores e consumidores idealizam sociedades, energizam ouvintes e difundem sua causa ao redor do mundo. Sua chegada à América Latina ocorreu nos primeiros anos da década de 1980 e desde então tem se espalhado e se renovado. Os processos que levaram a isso geraram rupturas e permanências com os modelos tradicionais de fascismo e particularidades contextuais, registrados pela música cujo potencial documental é vasto. Por meio de um exame comparativo de bandas do gênero na América Latina, podemos constatar suas especificidades e propriedades.

 

Palavras-chave: Rock; neofascismos; América Latina.

 

Resumen: El rock neofascista es un género musical propio a movimientos alineados a este ideario político, por medio del cual sus compositores y consumidores idealizan sociedades, energizan oyentes y difunden su causa alrededor del mundo. Su llegada a América Latina ocurrió en los primeros años de la década de 1980 y desde entonces se ha extendido y se ha renovado. Los procesos que llevaron a ello generaron rupturas y permanencias con los modelos tradicionales de fascismo y particularidades contextuales, registrados por la música cuyo potencial documental es vasto. Por medio de un examen comparativo de bandas del género en América Latina, podemos constatar sus especificidades y propiedades.

 

Palabras clave: Rock; neofascismos; América Latina.

 

Abstract: Neo-fascist rock is a musical genre of movements aligned with this political ideology, through which its composers and consumers idealize societies, energize listeners and spread their cause around the world. His arrival in Latin America occurred in the early 1980s and has since spread and renewed. The processes that led to this generated ruptures and permanence with the traditional models of fascism and contextual particularities, recorded by music whose documentary potential is vast. Through a comparative examination of bands of the genre in Latin America, we can verify their specificities and properties.

 

Key words: Rock; neo-fascism; Latin America.

 

 

 

 

Introdução

A presença dos neofascismos na América Latina é marcada por contradições, singularidades e violência. Sobretudo nos anos 1990 e na década passada, são muitos os casos de agressão a segmentos sociais específicos perpetrados por movimentos skinheads mais ou menos organizados em boa parte da região, especialmente no Cone Sul. Embora muitos acreditem na inviabilidade desse comportamento político em países latino-americanos, crença esta baseada em estígmas e pressupostos sobre ele, é importante percebermos que o pragmatismo intrínseco aos fascismos clássicos, pedras fundamentais de suas versões atuais, gera incoerências, mas não impede a existência deste fenômeno em lugar algum.

Isso se manifesta em ocorrências como o assassinato de dois jovens punks pelo skinhead argentino Alex Veas, de 25 anos, em março de 2014, dois anos antes de ser condenado[1]. Ou nos conflitos entre skinheads colombianos e militantes de esquerda, cujo resultado foi a morte do adolescente Luiz Felipe Toquica, membro da organização neofascista Tercera Fuerza, em 2008[2]. Também se evidencia na existência de movimentos empenhados na difusão do ódio racial e do nacionalismo extremista, como o chileno Frente Ordem Nacional[3] e as muitas células do Blood & Honour espalhadas pela América Latina[4]. Mais recentemente, se expressa na tentativa de unir a extrema-direita, em particular a de viés integralista, proposta pela Frente Nacionalista no Brasil em 2015 (OLIVEIRA 2016).

Como, em cada um destes países, tão distantes do berço dos fascismos históricos, mas tão próximos entre si, os neofascismos se comportam? O que é semelhante e diferente entre eles e em relação ao que fora estabelecido pelos regimes de Benito Mussolini e Adolf Hitler no já longínquo início do século XX? Responderemos estes questionamentos por meio do que nos dizem os militantes neofascistas latino-americanos em seus próprios registros, presentes num gênero musical próprio às suas operações políticas: o rock neofascista.

Para fins de esclarecimento, é pertinente fazermos três considerações. Primeiro, devemos elucidar quem chamaremos de neofascistas. Não nos referiremos assim necessariamente às organizações políticas, civis ou não, que herdaram dos fascismos clássicos suas características e as modificaram convenientemente, a fim de suavizar seus discursos vislumbrando pleitos eleitorais e a inserção na arena política democrática. Os neofascistas sobre os quais nos deteremos neste ensaio são os produtores e principais consumidores do chamado rock neofascista: os skinheads. Embora muitos deles se associem a partidos ou organizações de extrema-direita, não mascaram os seus discursos e são os responsáveis por ações diretas radicais idealizadas inclusive nas músicas.

Segundo, é preciso justificarmos isso. Conforme nos explica Francisco Carlos Teixeira da Silva (2004), esses dois tipos de neofascismos se distinguem fundamentalmente pela forma como se expõem. Enquanto os políticos engravatados articulam meios de inserção política abrindo mão da face mais extremista de suas agendas, os skinheads se percebem como a “linha de frente” da revolução neofascista. Vivem os fascismos diariamente por meio de emblemas costurados às suas roupas, tatuagens eternizadas em suas peles, pelo uso de vestimentas e pelo consumo de uma cultura particular, a exaltar os ídolos fascistas de todos os tempos a todo o tempo. Eles respiram suas ideias políticas.

Terceiro, devemos acentuar que o rock neofascista é resultado disso, de um esforço em explicitar as idealizações pessoais e coletivas de skinheads neofascistas para que não haja dúvidas sobre elas. Explicaremos este gênero com maior cuidado no tópico seguinte, para depois fazermos um exame mais robusto sobre o rock neofascista na América Latina para, assim, respondermos aos questionamentos propostos em nosso terceiro parágrafo. Utilizaremos como fonte as músicas de proeminentes bandas ligadas ao gênero na região, reconhecidas entre seus pares e difundidas de forma significativa na Internet.

Confrontaremos os seus discursos afim de encontrarmos permanências e rupturas do comportamento político fascista, bem como as características individuas de cada caso para localizarmos a influência de suas realidades sócio-políticas em seus discursos. Não faremos isso de forma irresponsável, mas com um método adequado intencionando interrogarmos os documentos levando em conta seus “universos diversos postos em comparação e iluminação recíproca” (Barros 2014, 46). Assim, pretendemos garimpar origens em comum e diversas deste mesmo imaginário.

Neste sentido, nossa análise comparativa se enveredará pelos discursos selecionados fazendo uso das abordagens individualizadora e diferenciadora, próprias a esse campo do conhecimento histórico. Com a primeira, cuidaremos de pinçar as igualdades em cada caso justamente para clarear suas particularidades. Com a segunda, pretendemos “submeter os diversos casos que estão sendo examinados a um certo conjunto de variáveis (...) de modo a tirar conclusões sobre os diferenciais de cada caso examinado” (Ibíd., 79) e, assim, formular uma síntese.

Após este processo, deveremos conhecer um pouco melhor as facetas dos neofascismos latino-americanos ou ao menos parte delas, visto que a vastidão de possibilidades de análise combinada a cerca escassez de documentos nos impede de enxergar cautelosa e responsavelmente as obscuras profundezas pelas quais esse comportamento político se espalha. Um estudo mais amplo poderia resultar em generalizações ou em detalhamentos excessivamente descritivos e precários, algo distante da nossa proposta. Por ora, nos debruçaremos sobre o que nos permite o tempo e a cautela, desejando que as reflexões aqui fornecidas possam aguçar o interesse de outros pesquisadores.

 

Do Velho ao Novo Mundo: o rock neofascista e sua gênese

O rock neofascista surgiu na Inglaterra, no final dos anos 1970, quando o desemprego estrutural e a recessão econômica, decorrentes da crise do capitalismo provocada especialmente pelas baixas no comércio do petróleo, soergueram organizações neofascistas aspirantes ao poder como o British National Party (BNP) e a National Front (NF). Ambas disputavam um eleitorado branco, de baixa escolaridade, da classe operária ou de parte da classe média, afetado pela crise e competindo com a mão-de-obra barata advinda de antigas colônias inglesas, como Jamaica e Índia. Era principalmente contra estes migrantes que a extrema-direita energizava os ressentimentos dos britânicos. Sob discursos de que a nação estava sendo escamoteada por estrangeiros e, por isso, necessitava revigorar suas raízes nacionalistas (inclusive étnicas), a extrema-direita alcançou certa notoriedade no Reino Unido. Atacava a esquerda e a direita tradicional por uma suposta conivência com a queda do “poder britânico” e se apresentava como solução a ambas, aos moldes dos fascismos italiano e alemão. Uma terceira via dita imaculada dos vícios liberais e socialistas (Copsey 2011).

Orbitando estes partidos, encontravam-se skinheads cooptados pelos representantes partidários ávidos por conquistar jovens para as suas frentes. Os skinheads eram uma subcultura originada na classe operária britânica nos anos 1960, e muitos deles foram seduzidos pelas propostas do BNP e da NF. Naquela época, o movimento punk britânico havia estourado como impulsionador da rebeldia jovem antistablishment expressa por meio da música, o punk rock, bastante apropriado pelos skinheads que pegavam carona na onda inconformista de um movimento que já flertava com a esquerda. Os skinheads, cuja perspectiva era a de que viviam uma realidade mais dura do que a dos punks, acabaram se aproximando mais da extrema-direita. Com isso, em meio a uma efervescência cultural tão bombástica, algumas bandas compostas por skinheads ou ex-punks protagonizaram o surgimento do rock neofascista.

Tudo começou em 1979, quando a banda Skrewdriver, liderada por Ian Stuart Donaldson, transformou suas músicas em espaço de difusão das propostas do NF, ao qual o vocalista era ligado (inclusive como militante assíduo de sua ala jovem), porém de forma ainda mais radical do que propunha a organização. A banda ficou conhecida por liderar o movimento Rock Against Communism (RAC), uma resposta ao Rock Against Racism (RAR), convocado por bandas punks que rejeitavam a presença de neofascistas e racistas em seus shows, como frequentemente vinha ocorrendo (Salas 2006). Em 1984, com o lançamento do álbum Hail the new dawn, a banda impulsionou sua jornada para a difusão do rock neofascitsa em toda a Europa e mesmo fora dela.

A fundação do movimento Blood & Honour por Donaldson em 1987, símbolo de sua cisão com o NF e de sua busca por independência política para discursar ideias fascistas sem maquiagem, levou o rock neofascista ainda mais longe. No entanto, até lá muitas outras bandas europeias se dedicavam a versar sobre ideias semelhantes se não idênticas, como a Böhse Onkelz e a Vit Agression (Alemanha), No Remorse, Brutal Combat (França), Plastic Surgery (Itália), apenas para mencionar algumas. Os Estados Unidos também conheceram o crescimento da cena skinhead neofascista simultâneo ao avanço do gênero, capitaneado por bandas como Bound for Glory e Bullyboys. Sucessivamente, o rock neofascista chegou à América Latina acompanhado dos primeiros movimentos skinheads da região nos anos 1980, ao ruir de suas ditaduras militares.

Dificilmente alguma descrição dada sobre o rock neofascista e sua sonoridade pode explicá-lo com perfeição. Excetuando seus discursos, as músicas são muito parecidas: regra geral duram menos de quatro minutos, possuem três ou quatro acordes e são cantadas de forma agressiva. Essa última característica, dentre as muitas furtadas do punk rock, possui valor funcional: instiga a emoção e a energização dos ouvintes, algo fundamental aos discursos fascistas desde a sua origem. Estes elementos musicais, a relação emocional que as pessoas possuem com a música, são comuns a diversas sociedades independentemente do que dizem as letras, o que facilitou a adaptação do gênero em boa parte do mundo. As letras, por outro lado, nos revela mais complexidades desse processo.

Por essa razão o gênero vem sendo classificado de diversas formas por estudiosos do tema. Alguns se referem a ele como nazi rock (Salas 2006; Moyano 2004), White Power rock (Shekhovtsov 2012), RAC, entre outras denominações que restringem a música a suas especificidades, quando na verdade estas são desdobramentos de um mesmo gênero. O rock neofascista pode agregar ao mesmo tempo discursos nazistas, racistas, antistablishment, sem deixar de ser, como um todo, uma coisa só. Por isso é necessário compreendermos que os neofascismos, no plural, compreendem os diferentes tipos de um mesmo fenômeno político cujas variações não se distanciam de seu cerne.

Este tipo de rock é caracterizado por crenças e atitudes nacionalistas e é comandando pela ideia de que afiliações étnicas com uma nação ou raça determinam o valor do ser humano. Ou seja, serve para difundir preceitos básicos dos neofascismos em suas multiplicidades, que veem os direitos humanos e civis como subordinados a critérios nacionais ou raciais (Pierobon 2012). Assim, estabelecem os antípodas da nação, os inimigos contra quem energizam o ódio de seus adeptos ou de potenciais simpatizantes, incidindo sobre seus ressentimentos e criando a ideia de que os nacionalistas são heróis e todos os que não compreendem a sua causa devem ser expurgados.

Os inimigos podem ser muitos a depender do contexto sócio-político e cultural de cada país. Em alguns casos, os neofascistas duelam mesmo entre si na disputa pelo domínio de uma real associação aos fascismos, execrando outros por estarem atrelados a contextos nos quais a sua existência seria impossível, de acordo com a compreensão de cada dogma estabelecido. Por exemplo, os neofascistas estadunidenses podem ser céticos quanto a movimentos brasileiros, visto que para os primeiros os segundos são latino-americanos, portanto provenientes de uma raça percebida como inferior. Isso resulta da forte presença do nazismo entre os skinheads estadunidenses, utilitário ao seu perfil majoritariamente racista.

Tendo isso em vista, partiremos a um exame mais aproximado dos neofascismos latino-americanos por meio da música. É fundamental percebermos que apesar de partirem de uma mesma região, estes discursos não necessariamente compreende uma união total entre seus respectivos movimentos, como pode acontecer na Europa Ocidental, onde os neofascistas se percebem como membros de um mesmo todo, embora fragmentado por suas nações autônomas. Na América Latina, a própria formação territorial definida pelos processos colonizadores implicam em diferenças e nuances para a presença dos neofascismos.

 

Argentina e Chile: neonazismo como bandeira fundamental

Para Robert Paxton (2007, 314), “a América Latina, entre 1930 e o início da década de 1950, chegou mais perto que qualquer outro continente que não a Europa do estabelecimento de algo próximo a regimes genuinamente fascistas”. Porém, é necessário tomarmos cautela pois muitos dos movimentos de viés fascista ou mesmo políticos autoritários “tendiam a adotar a cenografia fascista, na moda nos anos 1930, ao mesmo tempo em que copiavam soluções para a depressão tanto do New Deal de Roosevelt quanto do corporativismo de Mussolini”, completa o autor. Todo esse emaranhado de vertentes e soluções em muito caracteriza os neofascismos latino-americanos de hoje. Inclusive os que tendem ao hitlerismo.

Antes de mais nada devemos, para evitar confusões, destacar que o nazismo é um tipo de fascismo, embora possua características específicas. O antissemitismo e o racismo da doutrina hitlerista o diferencia bastante do fascismo italiano, embora este tenha passado a se preocupar mais vividamente com as diferenças raciais após a ascensão do Terceiro Reich, muito posterior à chegada de Mussolini ao poder. Por isso, por necessariamente estar imbuído do racismo, destacaremos o neonazismo dos neofascismos para sublinharmos a presença de discursos racistas entre as bandas aqui analisadas.

O neonazismo é o tipo de neofascismo preferido entre os skinheads argentinos e chilenos. Na Argentina, o Dia de la raza, que celebra a chegada dos espanhóis à América, é comemorado por skinheads como o dia da chegada da raça branca ao continente[5]. Em um evento realizado em 12 de outubro de 2003, os skinheads argentinos não deixaram a data passar em branco: 70 pessoas assistiram a shows de bandas neofascistas locais, incluindo a Barbarians e a Frontal Oi!. Bandas relativamente pequenas se comparadas a grandes nomes da cena neofascista argentina, como a Nüremberg, a Ultra Sur e a Acción Radical.

A banda Nüremberg, formada em Buenos Aires no ano de 1998, lançou seis anos depois em uma coletânea da divisão argentina do Blood & Honour, junto ao selo White Distribution,  a música  intitulada Argentina, na qual podemos ouvir:

A Argentina é o seu país, você não deve duvidar

O sangue europeu floresceu esse território

Seus bosques e suas montanhas, seus mares e seus rios

São seus emblemas, lute por esta terra

Não choro por ti, Argentina, eu luto por ti, Argentina

(...)

Filhos de europeus chegaram a essas terras

Apoiando o progresso sem medir esforços

Resista, Argentina, ao mal que está nascendo

Resista, pátria minha, te ressuscitaremos[6].

 

Não bastasse a banda ter lançado sua música em uma coletânea de um dos mais proeminentes movimentos neonazistas do mundo, bem como por um selo musical responsável pela difusão de dezenas de bandas neonazistas, a Nüremberg reforça seu vínculo com o nacionalismo extremado que caracteriza esse tipo de música. Porém, traz consigo algo bastante particular: seu vínculo nacional e étnico não é com os povos originários do território onde hoje se encontra a Argentina, como ocorreu com os nazistas alemães, mas sim com os invasores europeus, espanhóis. Trata-se de uma clara busca para justificar seu posicionamento, evocando uma genealogia com aqueles que, conforme acreditavam os nazistas, eram povos de raça superior: os europeus.

Na ânsia por tentar garantir essa conexão a qualquer custo, a banda expressa em suas músicas a necessidade de preservação dessa “raça” trazida pelos espanhóis. Se na Europa a “raça branca” é retratada pelos neonazistas como ameaçada em seu berço pelas invasões estrangeiras, na América Latina aparece como uma “minoria” em busca por permanência e expansão. A música 14 palabras, também lançada pelos argentinos da Nüremberg, diz:

Guardião de nossa estirpe, cultura e tradição

As defenda com sua vida, com paixão e amor

Herdeiro de uma história, continua sua evolução

Seus filhos lutarão da mesma forma que você

Devemos assegurar a existência de nossa raça

E um futuro para as crianças brancas[7].

 

Guardar e defender, com a própria vida, a “herança”, a “história” dos brancos. A referência às 14 palavras de David Lane (“devemos assegurar a existência de nossa raça e um futuro para as crianças brancas”), um dos maiores teóricos da organização separatista estadunidense The Order, está relacionada aos fundamentos dessa necessidade de preservação cara aos neonazistas. Para a Nüremberg, essa preservação da “herança” aparece mais uma vez como clara referência à colonização européia, buscando forjar as fundações de um pensamento nazista local e a edificação de peças favoráveis a mitos nacionalistas. Nesse sentido, os colonizadores, dotados de força e poder, submetem os povos originários, fracos e incivilizados, uma narrativa apropriada aos desejos de expansão da “raça ariana”.

Esses mitos também são de extrema importância para os neofascistas argentinos da banda Ultra Sur, o que pode ser comprovado pela música Juan Manoel de Rosas: “Inimigo mortal do capitalismo/Se vivesse hoje, combateria o sionismo/Defensor do povo e da justiça nacional/Zorro da justiça social/Juan Manoel de Rosas, o restaurador”[8]. Juan Manoel de Rosas, conhecido como o Restaurador de Leis, foi um militar argentino, de ascendência espanhola, ditador e creditado por ter promovido a independência da então Confederação Argentina em 1829. Em seu histórico marcado por atitudes fortemente repressivas e controladoras, está o combate direto a populações indígenas e a defesa dos interesses das elites argentinas, descendente e herdeira direta dos colonizadores espanhóis, fazendo uso do chamado Terrorismo de Estado para silenciar opositores e estimular uma ordem nacional (Bethel 1993).

O culto a Rosas aparece cheio de contradições, como é costumeiro entre esses discursos. Primeiro, evocam um “herói nacional” formador da política argentina. Ao mesmo tempo, saúdam um herdeiro colonial dedicado ao extermínio de povos originários, sendo um impositor de normas europeístas sobre outras etnias e culturas. Podemos assim concluir que o nacionalismo dos neofascistas argentinos, como o de muitos na América Latina, é fundamentado numa história marcada pelos traços deixados pelos europeus, pela lógica de políticos em busca de modelar a América à imagem européia ou espanhola, onde prevaleceram o racismo e a supressão da presença dos povos originários ou de outras raças.

Além da presença de um racismo estrutural proveniente da herança política deixada pelos espanhóis, na qual o escravismo era, no passado, fundamental para o desenvolvimento econômico e para a guerra (onde os africanos ocupavam as linhas de frente, para protegerem os brancos), vale lembrar que “quando a Segunda Guerra eclodiu, a Argentina permaneceu neutra, mas seu exército inclinava-se pelos alemães, o país de origem de seus armamentos e de seu treinamento” (Paxton 2007, 316). Visto que há uma tendência entre os skinheads ao autoritarismo e ao militarismo, esse fato em muito pode reforçar o orgulho dos neonazistas argentinos. É necessário atentar também ao fato de que a Argentina recebeu, no pós-guerra, um considerável número de nazistas após a queda do Terceiro Reich na Alemanha (Lanata 2008), algo passível de ter suas razões questionadas (por que o Estado e a sociedade permitiriam isso?) e fator de influência para a disseminação do hitlerismo ao menos em alguma medida.

A banda Acción Radical, uma das mais antigas da Argentina, supera a necessidade de recorrer a personagens históricos para defender o nazismo, como podemos observar na música Nacional Socialismo, lançada no álbum Volveran Banderas... Victoriosas, em 2004:

Prostituição, homossexualidade, vício em drogas

Imigração, desocupação

As raízes do sionismo se estendem

E assim o judaísmo se diverte

Não posso crer, não se pode controlar

Não posso ver a minha nação assim

Rumando à destruição

Nacional Socialismo, a solução da degradação[9].

 

Tudo que não é da alçada dos homens brancos, heterossexuais, nacionalistas e trabalhadores, como manda o rigor dos fascismos, é atirado pela banda a um mesmo conceito: o de degradação. Os responsáveis por ela seriam os judeus, os sionistas, clássicos inimigos do nazismo. Para os neonazistas, como dito por Carlo Ginzburg (2006), paira a tola ideia de uma conspiração judaica, por meio da qual os judeus se espalham pelos mais diversos campos da sociedade a fim de influenciá-la. Um desses campos seria o político. Entre os neonazistas é comum atribuir às democracias liberais, onde a diversidade sexual e regional são corriqueiramente aceitas, ao sionismo, bem como compreenderem o comunismo como parte de uma conspiração judaico-marxista internacionalista, totalmente oposta aos ideais nacionalistas dos fascismos (Vitkine 2011).

A perseguição aos judeus mobilizada pelos nazistas no Terceiro Reich não se tratava “de destruir uma cultura e uma religião, mas a destruição de uma ‘raça’, de todo um grupo humano, posto que o mal que o judaísmo representava residia no próprio sangue judeu” (Teixeira Da Silva 2014, 45). Essa herança antissemita é mantida no pós-Segunda Guerra Mundial e chegou até o presente não necessariamente pela existência massiva de judeus em países do Ocidente, mas por ser cara à militância hitlerista, como uma espécie de cartão de identidade posto que não há neonazismo sem antissemitismo.

No Chile há perspectivas semelhantes. Na terra natal de Miguel Serrano, um dos maiores ideólogos neonazistas hispânicos (Salas 2006), os neofascismos tendem à via nazista e sugerem um nacionalismo racial. Serrano se dedicou ao esoterismo nazista e à militância na América Latina, escrevendo livros e ensaios em favor do Terceiro Reich. A ele é dado o título de maior intelectual nazista da Nova Era, cujos estudos foram importantes para a busca por legitimação dessa doutrina no pós-guerra entre os latino-americanos. Serrano testemunhou o episódio que ficaria conhecido como “Massacre do Seguro Operário” de 1938, no qual as autoridades do país enfrentaram militantes do Movimento Nacional-Socialista do Chile e deixaram cerca de 60 deles mortos.

Desde os anos 1930, há no Chile um culto às ideias hitleristas de raça superior, baseadas tanto na ancestralidade espanhola, quanto na própria extensão do território chileno: sua proximidade com o Polo Sul resulta em especulações absurdas sobre sua potencial hereditariedade com os nórdicos, uma vez que os continentes terrestres foram todos um só num passado remoto (Salas 2006). Seja como for, o país teve seus próprios movimentos fascistas no ápice dos regimes europeus, algo bastante sintomático.

O episódio do Seguro Operário foi tematizado pela lendária banda chilena Odal Sieg, em 2001, na música 1938 guerreros a la acción:

Por sua pátria você partiu um dia

Sempre disposto a dar a sua vida por ela

Sacrificando sua juventude, seus sonhos, seu ideal

Para sua pátria salvar

(...)

Nunca te esqueceremos, camarada do Seguro Operário

Somos orgulhosos de seus atos”[10].

 

Aqui vemos a referência a um episódio específico da história chilena, como foi visto de forma semelhante no caso argentino, mas dessa vez centrado em um acontecimento mais recente, desprovido de qualquer ligação enfática com a herança espanhola. Esses episódios marcantes nos mostram a conexão entre essas bandas e os movimentos fascistas de seus países, evidenciam como a existência deles depende de possíveis adeptos e como são evocados e celebrados no presente, no qual há uma frequente busca para contrapor a decadência recente com a “coragem” do passado no qual se inspiram.

Ao mesmo tempo, essa noção de “herança” permanece, como vemos em Gran Mission, música da mesma banda: “O chamado do sangue transborda até o pensamento/Nossa herança ancestral clama pelo seu ressurgimento/Abrace nossa causa, cuide de sua origem/Torne-se parte desta grande missão”[11]. Quase como uma convocação, a música evoca uma “herança ancestral” a ressurgir. Uma herança formada pelos traços europeus, pelas origens da presença dos brancos nas Américas. Caso pairem dúvidas quanto a isso, basta ouvir outras músicas deste disco, como Arma blanca (“arma branca”), Ser superior e Ecos de revolución para constatar o racismo da banda, o empenho em tratar os brancos como superiores e todas as outras etnias como inferiores.

Assim os neofascistas de Chile e Argentina fizeram um uso funcional do nazismo: buscaram na genealogia dos países americanos a sua ancestralidade europeia, a fim de forçar uma aproximação com os europeus, com aqueles que os nazistas acreditavam ser possuidores de uma superioridade racial. Essa superioridade, para as bandas aqui analisadas, se evidenciaria no processo colonizador por meio do qual os europeus conquistaram a América e forneceram a ela um pedaço de sua raça, submetendo outras e operando consonantemente com o “darwinismo social” tão querido pelos nazistas. No entanto, nem sempre a associação com o neonazismo é funcional a skinheads neofascistas de outros países da região.

 

As singulares e semelhantes faces dos neofascismos latino-americanos

Estava programada para ocorrer em dezembro de 2015 na cidade de Curitiba o evento de inauguração da Frente Nacionalista, uma organização brasileira dedicada a unir os mais variados segmentos da extrema-direita em busca de acesso à política formal. A “Dezembrada”, como foi chamada a festa oferecida pela Frente, contaria com a presença de oito bandas, dentre elas a “Confronto 72”, “Estandarte Patriótico”, “29 de Dezembro”, entre outras. Estas três bandas são abertamente alinhadas ao integralismo, versão brasileira do fascismo, difundida pela Ação Integralista Brasileira (AIB) nos anos 1930.

A “Confronto 72”, em seu álbum “Rock Anti Comunista”, possui uma música chamada “Gustavo Barroso”[12], na qual homenageia o líder integralista, notável ideólogo do antissemitismo disseminado por sua doutrina política. O próprio nome da banda, ao usar os números 7 e 2, correspondendo respectivamente às letras G e B (sétima e segunda do alfabeto), faz referência a ele. O mesmo ocorre com a “29 de Dezembro”, data de nascimento de Barroso. Já a “Estandarte Patriótico”, em um vídeo que registra a gravação de um ensaio, diz em alto bom som: “Eu sou integralista”, em música homônima[13].

Nenhuma das três bandas traz em suas músicas discursos racistas contra negros, embora o integralismo pressuponha um antissemitismo que, sabemos, não se exprime no ódio à religião ou à cultura judaica, mas na concepção de que os judeus são biologicamente inferiores. Soma-se a isso o forte catolicismo integralista, o qual, em diferentes momentos da história, foi veementemente contrário à não aceitação da figura de Jesus Cristo pelos judeus (Bertonha 2014). Para a AIB, o racismo aos negros era incoerente com a história do Brasil, construída com a força dos africanos. Embora fosse liderado por brancos, o integralismo rejeitava o racismo aberto contra pessoas negras e exaltava o “mito das três raças”, o qual compreendia o povo brasileiro como uma mistura entre brancos, negros e índios, a “raça brasileira”.

Predominam entre as bandas brasileiras outras características dos fascismos, como o nacionalismo histórico – aquele no qual existe a crença de que a nação é composta por indivíduos que compartilham de uma mesma história, mesma língua e mesma cultura (Hobsbawm 1992) – e o ódio a inimigos políticos como os comunistas e os liberais. Não queremos com isso dizer que não existam bandas compositoras de discursos racistas, mas elas variam conforme a região do país. Por exemplo, entre as bandas do Sul e Sudeste (como “Brigada NS” e “Locomotiva”, de São Paulo, “Comando Blindado” e “Dr. Martins”, do Rio Grande do Sul) há uma forte xenofobia em relação aos nordestinos, racismo contra os negros e mesmo uma tentativa de diferenciação quanto ao resto do país, feita por meio de reivindicações quanto à herança europeia deixada nestas regiões (Santana 2012). Ao mesmo tempo, bandas nordestinas como “Bandeira de Combate” (Bahia) e “Voluntários” (Ceará) se dedicam a outros tipos de discurso.

A síntese do que defendem as bandas neofascistas brasileiras pode ser constatada em músicas como “Nação em chamas”, da banda “Anti-Narcose”, lançada em 2003:

Drogas e crimes pelas ruas da cidade

Na TV alienação e promiscuidade

Manifestações homossexuais

Pelas ruas e avenidas a moral vem sendo destruída

O poder político dos comunistas está crescendo

Os alicerces da família estão apodrecendo

(...)

Estou vendo meu povo em uma caminhada insana

Estou vendo minha nação ardendo em chamas[14].

 

De acordo com Márcia Regina da Costa (2000, 159), o skinhead constroi sobre si a imagem de “jovem forte, potente, que não se droga, um guerreiro moralista disposto a defender sua nação de inimigos”. Alguns desses inimigos são apontados na música: homossexuais, comunistas, todos os que supostamente se engajam em destruir os “alicerces” da família tradicional e da nação idealizada pelos compositores. Portanto, todos os que não concordam ou não se encaixam em suas visões de mundo excludentes. Tal imaginário não se distancia muito da postura de brasileiros conservadores ou reacionários comuns, pois há no Brasil uma cultura moralista bastante apta a defender as tradições familiares, sociais e políticas. Uma considerável parte dessas pessoas execraram publicamente o Partido dos Trabalhadores e seus principais representantes, sobretudo a ex-presidente Dilma Rousseff, acusando-os de serem comunistas tal qual a música faz, em relação ao engatinhar do primeiro mandato de Luis Inácio Lula da Silva um ano antes de ser lançado o referido disco. Tudo isso resultado de uma confusão quanto a elementos do neodesenvolvimentismo petista, tratado pelos seus críticos como comunismo.

Em oposição a tudo que rejeitam, surge entre os skinheads um culto a eles mesmos, uma auto-construção permeada pela ideia de soldados da moral. Isso faz parte da característica distintiva destes, em tentativas vigorosas de delimitarem suas diferenças, suas qualidades e sua nobreza. A música Culto skin, da banda colombiana Orgullo Nacional, nos serve como exemplo: “Passam anos, passam dias/E segue com seu estilo de vida/Pois entre todos você é uma exceção/Por isso escute essa canção/Sobre a classe obreira e estendida/Desde a Europa estacionando nas ruas de nossas vidas”[15]. O skinhead é pensado como exceção ao todo circundante, premissa elementar para suas exigências de pureza.

A banda supracitada é associada ao movimento colombiano Tercera Fuerza, de Bogotá, cuja existência “é pontuada como a recuperação de um projeto antigo, iniciado na cidade de Pereira nos anos 1950, cujo lema seria ‘Dios y Patria’, interrompido pela ida de muitos dos seus idealizadores à Espanha” (Oliveira 2013, 09). Em sua página na Internet, a organização se identifica como uma “comunidade militante de ideias de um setor juvenil que pretende preservar e restabelecer a essência e a identidade do espírito do Nacional-Socialismo e hispânico em nosso país”[16]. Ou seja, um movimento de jovens tributários ao passado.

A música também exprime, mais uma vez, as contradições desses agentes. Ela afirma que a “classe operária” à qual pertencem seus pares é uma extensão da europeia, de onde surgiram os primeiros skinheads, uma tentativa de manter proximidade com o embrião do movimento. Embora nacionalista, a banda se alinha a símbolos externos tentando aprimorar sua história. Além disso, como podem possuir uma noção de classe, por mais simples que seja, se os fascismos pressupõem a supressão da luta de classes em nome de uma sociedade orgânica gerida pelo Estado corporativo? Seu anticomunismo, inclusive, é resultante disso. Acreditamos que essa contradição é consequência da luta incessante para exaltar a origem operária dos skinheads usando dela apenas a opressão sofrida diante do sistema capitalista que a oprime para fins de vitimização, mas sem qualquer capacidade de compreender a existência da teoria marxista, à qual se opõem, nessa visão de mundo.

O mesmo transparece em músicas da banda Caballería de la tormenta, do México. Em um cover da banda espanhola Reconquista, intitulado Antisistema, a banda diz:

Uma juventude rebelde grita nas ruas

Suas proclamações e suas exigências são a desobediência

A tirania é imposta por ladrões pela ditadura do capital

Viemos do inferno com fogo nas veias

Alçamos aos ventos a nossa bandeira

Somente os guerreiros nos acompanham na luta

Já que Deus está com eles quando são maioria[17].

 

Primeiro, há que se pensar que esta letra foi composta por uma banda fascista espanhola e, portanto, trata originalmente daquele contexto. Segundo, devemos reconhecer que ela em muito pode se assemelhar com músicas feitas por bandas de esquerda, visto que há uma revolta quanto ao capitalismo. Apesar disso, a banda realizou eventos pela organização Frente Nacional Mexico[18], organização de skinheads neonazistas que, entre outras coisas, se opõe à influência cultural e política dos EUA, com quem o país faz fronteira, bem como ao materialismo capitalista, um traço marcante dos fascismos (Paxton 2007). Isso comprova sua relação com a extrema-direita, não com a esquerda. Na página do grupo é possível encontrar diversos textos em exaltação a Adolf Hitler, bem como largas referências ao folhetim Timón, dirigido por José Vasconcelos nos anos 1940, o qual saudava o regime nazista e movimentos de extrema-direita mexicanos, como a Unión Nacional Sinarquista, além de vídeos da banda.

Em terceiro e último lugar, devemos observar novamente como os skinheads se veem: guerreiros rebeldes, desobedientes, violentos, corajosos. Auto-descrições como essas são encontradas entre as bandas de todos os países aqui analisados. Guerrero skinhead (Nüremberg)[19], Fiel Camarada (Ultra Sur)[20], Nuevos guerreros (Odal Sieg)[21], “O Brasil é a nossa nação” (“Confronto 72”)[22], “Guerreiros da Terceira Posição” (“Estandarte Patriótico”)[23] e “Espírito e Honra” (“Anti-Narcose”)[24] são apenas alguns exemplos.

Ou seja, mesmo que os neofascistas da América Latina oscilem entre o neonazismo e outros tipos diferentes desse comportamento político, a imagem que possuem sobre si mesmos parece a mesma. Ao mesmo tempo, referenciam as origens europeias skinheads e tentam construir características próprias, embora isso implique em problemas na elaboração de seus nacionalismos. Apesar de parecer um movimento uno, há diferenças significativas. Estas diferenças correspondem à origem de cada banda, ao contexto sobre o qual discursam e à constituição histórica de seus países.

 

Considerações finais

De forma muito semelhante, as bandas neofascistas da América Latina, ao menos as que pudemos averiguar aqui, recorrem intencionalmente a movimentos fascistas históricos de seus países para lembrá-los como exemplos. Porém, também são moldados sem perceber pelas especificidades de cada um deles. No caso da Argentina e do Chile, existem elementos históricos que, diluídos no tempo e imbricados na cultura desses países, favoreceram uma preferência predominante dos neofascistas ao nazismo. Podemos perceber isso entre os neofascistas colombianos e mexicanos, próximos a organizações políticas mais formais, mas de forma diferente: há mais um utilitarismo difuso do nazismo para criar uma nova identidade do que um tributo a ele, como se fizessem parte de uma descendência absoluta.

Já no caso do Brasil, há um maior distanciamento em relação ao nazismo por este se relacionar intimamente com o racismo, mesmo que privilegie o racismo contra os judeus, algo por vezes defendido entre os neofascistas brasileiros sem que estes compreendam a sua origem. O integralismo certamente influenciou os neofascistas brasileiros a deixarem de lado o racismo explícito contra negros e índios, por exemplo, sob o pretexto de uma mítica “democracia racial” estabelecida desde as origens da nação. Os neonazistas do país se restringiram a regiões marcadas pela presença histórica dos europeus, com os quais buscaram ancestralidade e, com isso, tornaram contraditória a sua nação. Que nação querem: o Brasil ou um Sul-Sudeste independente, supostamente distinto racialmente de todo o restante do país?

Quanto ao fato de todos os discursos musicais aqui analisados terem sido compostos na primeira década deste século, é necessário destacarmos dois possíveis motivadores: primeiro, a chamada “guinada à esquerda” ocorrida no Cone Sul, quando governos progressistas se alastraram pelo continente e, de forma mais ou menos intensa, diminuíram as diferenças sociais entre pobres e ricos (embora tenham, talvez com exceção de Bolívia e Venezuela, fortalecido esses últimos mas, ainda assim, sendo confundidos com socialistas) e soerguendo a oposição da direita liberal antes corrente de forma intensa na região, bem como de uma direita mais extremista. Depois, o crescimento e a difusão da Internet, por meio da qual estas bandas puderam divulgar seu material musical panfletário de forma intensa.

Apesar de suas diferenças, as bandas neofascistas da América Latina tendem a um nacionalismo chauvinista, emocionado e energizador, apontando semelhantes inimigos entre os mais variados tipos possíveis. São anticomunistas e antiliberais, ao passo em que se autoafirmam como estranhos a tais tipos políticos, apartados das “traições” que sugerem terem sido cometidas pela direita e pela esquerda. Porém, se diferenciam quanto ao ódio racial por vezes entendido entre eles mesmos como incoerente diante da multiplicidade de etnias que compõem suas nações desde a colonização. Estas nações por vezes são retiradas de seu contexto e arremessadas a um espaço imaginário no qual são continuidades da Europa, onde são odiados pelos skinheads locais, chamados por eles de sudakas, latino-americanos inferiores racialmente.

Por fim, compreendemos que os neofascismos não são necessariamente descontinuidades de fascismos clássicos e de movimentos fascistas existentes no passado de sua região. São novas versões deles mais ou menos próximas de suas propostas originais, a depender da subjetividade com a qual cada grupo neofascista se depara. Os fascismos e seus elementos, como o pragmatismo, permanecem sob novas roupagens e continuam, como no passado, se adequando a diferentes realidades. Por essa razão não devemos, sob hipótese alguma, irresponsavelmente negligenciarmos sua presença na América Latina por uma risível incoerência. Esta suposta incoerência continua ameaçando vidas e ganhando espaço nos cenários políticos de seus países.

Em uma região na qual, consonante a um panorama global, se eleva a desconfiança em relação a governos progressistas e ascendem discursos reacionários (como os vistos no Brasil desde 2013 e na Argentina, além de crescentes críticas ao governo venezuelano desde a morte de Hugo Chavez e antigas rusgas com o regime socialista cubano), é preciso estar atento ao espaço que a extrema-direita busca ocupar e de quem desejam se aproximar. Movimentos e práticas fascistas não são novidade na América Latina. É fundamental reconhecermos suas nuances a fim de impedir seu crescimento.

 

 

 

Referências

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[1] CLARIN.COM. “Condenaron a un skinhead por el crimen de dos jóvenes punks en Burzaco”. Clarín, 03 mar. 2016. Disponível em <https://www.clarin.com/policiales/condenaron-skinhead-crimen-jovenes-burzaco_0_VJ7ibSZ3x.html>. Acesso em: 05 mar. 2018.

[2] RUGELES, Gustavo. “Radiografia del neonazismo”. El Espectador, 08 jun. 2013. Disponível em <https://www.elespectador.com/noticias/bogota/radiografia-del-neonazismo-articulo-426688>. Acesso em: 05 mar. 2018.

[3] Sobre isso, ver: Moura, Luyse Moraes e Dilton C.S. Maynard. 2012. Aspectos da nova extrema-direita chilena em tempos de Internet. In: Maynard, Dilton C.S. História, neofascismo e intolerância: reflexões sobre o Tempo Presente, 93-116. Rio de Janeiro: Editora Multifoco.

[4] O Blood & Honour é uma organização neonazista inglesa surgida em 1987, com o objetivo de agregar jovens por meio da cultura e da política. Sobre isso, ver: Alcantara, Samoel R. de. 2015. “Skinheads White Power na América do Sul: a internacionalização do discurso nacional-socialista da Blood & Honour”. Revista Espaço Acadêmico 14 (175): 18-26.

[5] Ver “Dia de la raza concert (Columbus Day)” – Disponível em <http://www.bloodandhonour-usa.com/sect/news/argent/columbusday.html>. Acesso em: 06 mar. 2018.

[6] Nüremberg. Argentina. In: Blood & Honour Argentina – White Music Volumen 1. Buenos Aires: White Distribution, 2004, faixa 06. 01 CD. Tradução nossa.

[7] Nuremberg. 14 palabras. In: Camarada. Alemanha: Gjallarhorn Klangschmiede, 2009, faixa 06. 01 CD. Tradução nossa.

[8] ULTRA Sur. Juan Manoel de Rosas. In: Nacido para ser skin. Estados Unidos: Label 56, 2009, faixa 11. 01 CD. Tradução nossa.

[9] ACCIÓN Radical. Nacional Socialismo. In: Volveran Banderas... Victoriosas. Buenos Aires: White Distribution, 2004, faixa 03. 01 CD. Tradução nossa.

[10] ODAL Sieg. 1938 guerreros a la acción. In: Nuevos Guerreros. França: Pit Records, 2001, faixa 12. 01 CD. Tradução nossa.

[11] ODAL Sieg. Gran mission. In: Nuevos Guerreros. França: Pit Records, 2001, faixa 02. 01 CD. Tradução nossa.

 

[12] CONFRONTO 72. Gustavo Barroso. In: Rock Anti Comunista. São Paulo: Independente, 2013, faixa 03. 01 CD.

[13] Ver “Estandarte Patriótico – Eu sou integralista” – Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=wK377Qb3Zuo>. Acesso em: 02 mar. 2018.

[14] ANTI-Narcose. Nação em chamas. In: 11 de setembro. São Paulo: Estandarte Records, 2003, faixa 07. 01 CD.

[15] ORGULLO Nacional. Culto skin. In: Al combatiente. Espanha: Bicefala Records, 2004, faixa 09. 01 CD. Tradução nossa.

[16] Ver “Tercera Fuerza ideário” – Disponível em <http://www.tercerafuerzanacion.org/ideario.html>. Acesso em: 15 fev. 2018. Tradução nossa.

[17] Ver “Caballería de la Tormenta – Antissistema” – Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=ruZLCF97JAs>. Acesso em: 07 mar. 2018. Tradução nossa.

[18] Ver “Frente Nacional Mexico” – Disponível em <http://frentenacionalmexico.blogspot.com.br/>. Acesso em: 06 mar. 2018.

[19] Nüremberg. Guerrero skinhead. In: Siempre Fieles. Berlim: Isenbeck, 2004, faixa 07. 01 CD.

[20] ULTRA Sur. Fiel camarada. In: Nascido para ser skin. EUA: Label 56, 2009, faixa 06. 01 CD.

[21] ODAL Sieg. Nuevos guerreros. In: Nuevos Guerreros. França: Pit Records, 2001, faixa 05. 01 CD.

[22] CONFRONTO 72. O Brasil é a nossa nação. In: Demo. São Paulo: Independente, 2013, faixa 02.

[23] Ver “Estandarte Patriótico – Guerreiros da 3ª Posição” – Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=hLq9XYz4O7Q>. Acesso em: 06 mar. 2018.

[24] ANTI-Narcose. Espírito e Honra. In: 11 de setembro. São Paulo: Estandarte Records, 2003, faixa 12. 01 CD.

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