O anticomunismo à mexicana: paramilitarismo e campanhas de rumores (1964-1976)

El anticomunismo a la mexicana: paramilitarismo y campañas de rumores (1964-1976)

Mexican anti-communism: paramilitarism and rumor campaigns (1964-1976)

 

Azucena Citlalli Jaso Galván

Mestra em História Social pela Universidade de São Paulo

São Paulo, Brasil

acjasogalvan@gmail.com

ORCID: http://orcid.org/0000-0001-9420-671X

 

 

Resumo: A política exterior mexicana desenvolvida pelos governos do Partido Revolucionario Institucional (PRI) foi tradicionalmente ligada à defensa da soberania das nações. Na década de setenta o discurso internacional adquire um tom posicionado à esquerda. Entre 1964 e 1976, no contexto da guerra fria, assistimos o processo de radicalização abarcando vários espectros políticos: a modificação nos mecanismos de repressão do Estado sobre os movimentos sociais; a irrupção do movimento armado socialista mexicano; e também a organização e atuação clandestina de alguns setores vinculados à igreja católica e grupos empresariais. O objetivo deste trabalho é a avaliação da relação do Estado mexicano com os grupos ideologicamente identificados com a direita partindo de alguns exemplos localizados nos relatórios da Dirección Federal de Seguridad (DFS) – organismo de inteligência do regime – que nos permitam entender a multiplicidade dos processos organizativos e a atuação de esses grupos, e avaliar as ponderações do Estado mexicano diante eles.

 

Palavras-chave: anticomunismo; MURO; Yunque; rumores; Plano Z.

 

Resumen: La política exterior mexicana desarrollada por los gobiernos del Partido Revolucionario Institucional (PRI) fue tradicionalmente ligada a la defensa de la soberanía de las naciones. En la década de los setenta el discurso internacional adquiere un tono posicionado a la izquierda. Entre 1964 y 1976, en el contexto de la guerra fría, asistimos al proceso de radicalización abarcando varios espectros políticos: la modificación en los mecanismos de represión del Estado sobre los movimientos sociales; la irrupción del movimiento armado socialista mexicano; y también la organización y actuación clandestina de algunos sectores vinculados a la iglesia católica y grupos empresariales. El objetivo de este trabajo es la evaluación de la relación del Estado mexicano con los grupos ideológicamente identificados con la derecha partiendo de algunos ejemplos ubicados en los informes de la Dirección Federal de Seguridad (DFS) - organismo de inteligencia del régimen - que nos permitan entender la multiplicidad de los procesos organizativos y la actuación de esos grupos, y evaluar las ponderaciones del Estado mexicano ante ellos.

 

Palabras clave: anticomunismo; MURO; Yunque; rumores; Plan Z. 

 

Abstract: The Mexican foreign policy developed by the governments of the Institutional Revolutionary Party (PRI) was traditionally linked to the defense of the sovereignty of nations. In the decade of the seventies the international speech acquires a tone positioned to the left. Between 1964 and 1976, in the context of the cold war, we witnessed the process of radicalization encompassing several political specters: the modification of the State's mechanisms of repression of social movements; the irruption of the Mexican socialist armed movement; and also the clandestine organization and action of some sectors linked to the Catholic Church and business groups. The objective of this work is the evaluation of the relationship of the Mexican State with the groups ideologically identified with the right based on some examples located in the reports of the Federal Security Directorate (DFS) - intelligence agency of the regime - that allow us to understand the multiplicity of the organizational processes and the performance of those groups, and evaluate the weightings of the Mexican State before them.

 

Key words: anticommunism; MURO; Yunque; rumors Plan Z.

 

 

 

 

Os períodos presidências de Gustavo Díaz Ordaz (1964-1970) e de Luis Echeverría Álvarez (1970-1976) nos apresentam dois momentos da política externa mexicana, com elementos que encontramos relevantes para entender alguns aspectos da política interna. Grosso modo podemos apontar que no mandato de Díaz Ordaz, a postura internacional foi de caráter defensivo, pautada pela experiência histórica anterior à Revolução de 1910. Isto é, ela reflete o trauma ocasionado pelas constantes intervenções estrangeiras no território; o peso que implica o fato de compartilhar uma grande fronteira com os Estados Unidos; assim como a necessidade de se concentrar na construção, consolidação e fortalecimento das instituições nacionais (Chabat 1986)[1]. Estes três elementos estão arraigados na expressão da defesa da livre autodeterminação dos povos e a não-intervenção nos assuntos relacionados à soberania. No sexênio seguinte, Echeverría apela a esses mesmos preceitos só que de uma maneira muito mais ativa, e, até poderíamos considerar, militante. A política externa se apresenta, então, como uma forma de atrair protagonismo internacional e liderança regional[2].

A renovação dos princípios internacionais repercutiu na ordem interna em duas direções políticas extremas. À esquerda, o fato de criar um discurso progressista em reprovação aos sistemas antidemocráticos instaurados, assim como a defesa da autodeterminação de Estados como o cubano ou o chileno, contribuiu para abafar as demandas da esquerda local.[3] Dessa forma, no âmbito internacional se reforçou a imagem de um México revolucionário e intransigentemente democrático. O historiador Enrique Condés Lara menciona que o discurso oficial ajudou “conseguir melhores condições para isolar e aplastar [a oposição civil e armada] […] e conseguiu o que quis: todo o mundo se desentendeu do que acontecia no México, e o aniquilamento dos rebeldes foi mais fácil” (Condés Lara 2007, 10). A repercussão do discurso radical dos mandatários mexicanos também ecoou, porém, dentro dos setores da direita, que de maneira paralela à esquerda iniciaram um processo de radicalização.

Embora o Estado mexicano se distanciasse do “anticomunismo apocalíptico” da Guerra Fria, sua relação com a militância de direita é estreita e, ao mesmo tempo, contraditória. Por um lado, protegeu e instrumentalizou os grupos que tinham características paramilitares deixando nas mãos da direita as ameaças e ataques diretos contra as manifestações da esquerda, contribuindo dessa maneira, com a preservação de sua imagem democrática. Contudo, as organizações anticomunistas rapidamente se tornaram uma verdadeira ameaça desestabilizadora da ordem interna, reagindo à posição oficial mexicana no contexto internacional. A aliança entre governo e direita não é muito clara na historiografia sobre o período, porém, o fato de que estes grupos fossem objeto de seguimento e analise por parte dos organismos de inteligência, nos apresenta indícios das ressalvas que o governo tinha sobre eles. Vejamos, pois, estas duas expressões da relação entre o Estado mexicano e o anticomunismo a partir de alguns relatórios elaborados pelos agentes da DFS.

 

O MURO, o Yunque, os empresários e o paramilitarismo

Num primeiro grupo documental encontramos informações sobre o Movimiento Universitario de Renovadora Orientación, o MURO, uma violenta organização de jovens católicos.[4] Os relatórios são uma tentativa para esboçar a estrutura e modus operandi da organização. Porém, as lacunas, ambigüidades, erros e inexatidões – além de evidenciar a ineficiência dos órgãos de vigilância – proporcionam elementos para nos aproximar à complexidade do anticomunismo mexicano.

Num memorando de quatro folhas sem assinatura, intitulado “A UNAM vítima da agitação promovida pelo MURO”, o agente encarregado da vigilância ao grupo se aproxima da organização e lança algumas hipóteses sobre sua estrutura.

A primeira coisa que se descreve é que o local de recrutamento do MURO estava focalizado nos centros universitários da região central e ocidental do país. Apesar de ser uma organização na qual seus militantes eram majoritariamente jovens estudantes universitários, o agente chama a atenção para o fato de que a “chefia suprema” pertencia a Ramón Plata Moreno, engenheiro formado na Universidad Autónoma de Puebla.[5] Não localizamos mais informação sobre o engenheiro nos relatórios, mas segundo a bibliografia quase hagiográfica elaborada por Klaus Feldmann Petersen (um velho militante do MURO),[6] Plata Moreno, aconselhado pelos sacerdotes da cidade de Puebla, funda a organização de alcance nacional denominada Yunque.[7] A organização concebida como “um corpo de combate contra o comunismo, a maçonaria e todos os demais inimigos de Deus e de sua Igreja, centrando-se na instauração do Reino de Deus em nossos corações e no México” (González Ruiz 2013). Para cumprir o ambicioso plano, Plata Moreno elaborou uma estrutura clandestina em forma de pirâmide invertida onde a liderança nacional se encontrava na ponta inferior.

Yunque se distinguia por ser uma organização:

“primordial”: nada é mais importante, nem a família, que a Organização; “hierárquico-consultiva”: nenhuma decisão se pode tomar sem o consentimento do chefe superior; “reservada”: totalmente secreta; e “combativa formadora de quadros políticos”: por isso o recrutamento de adolescentes depois de um rigoroso processo de observação e análise, para logo serem adscritos para a luta política (Delgado 2003).

Sob essas condições, Plata Moreno concebeu a criação de células de cooptação de jovens católicos, anticomunistas, ou passíveis ao doutrinamento que conformariam, por sua conta, as “pré-organizações”. Situadas na parte superior dessa pirâmide invertida, as organizações como o MURO tinham a função de combater corpo a corpo os elementos anticristãos, assim como impedir a detecção e possível desarticulação da organização maior, despistando e confundindo os serviços de inteligência.

Na investigação apresentada pelo agente da DFS, o MURO estava fundamentalmente integrado por estudantes dos Colégios Lassallistas pertencentes à congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs[8], sob direção do religioso Rafael Martínez Escobar, que oferecia “apoio pessoal e ilimitado” às organizações estudantis.

Rafael Martínez foi diretor do Colegio Benavente, na capital do estado poblano. A transcendência do personagem reside, segundo o agente da DFS, em que

[...] desde este colégio se prepararam agitações que tiveram repercussão nacional, como a concentração de católicos na catedral poblana, a que contou com o respaldo do arcebispo Octaviano Márquez y Tóriz[9], ano de 1961; y os distúrbios promovidos pelo Frente Universitario Anticomunista [...] que chegaram ao extremo de obrigar o exército a patrulhar as ruas de Puebla[10].

Voltando aos mecanismos de seleção dos militantes, os relatórios mencionam que se explorava “a mentalidade religiosa dos estudantes, a quem tratam de convencer da necessidade de depor as autoridades da UNAM, às que acusam de comunistas para suplantá-las por profissionais fanáticos pelo MURO”. Podemos dizer, então, que se recrutam jovens de escolas religiosas para atacar nas universidades públicas.

Até aqui, o agente encontra a existência do MURO motivada por um fator ideológico. Como foi previsto por Plata Moreno, ao ser organizações estudantis desviava-se a atenção dos “objetivos maiores”. Dessa forma, a DFS adverte que os alcances do doutrinamento também iam ao encontro do “assalto do poder público”, pois a organização considerava os governantes mexicanos como “não católicos”, sustentados em “princípios revolucionários contrários à religião”. Para intentar fundamentar esta afirmação, o agente encarregado do relatório em questão, passa a analisar as fontes financeiras da organização universitária (ainda sem distinguir o MURO do Yunque). Apresenta-se assim, uma lista de indivíduos e organizações que vão além do clamor ideológico anticomunista, nacionalista ou religioso, para tomar forma de grupos econômicos com interesse político.

Os primeiros financiadores mencionados pertencem ao “O grupo financeiro de Monterrey, através do engenheiro Javier Cobarrubias e do intermediário oculto do MURO, Bernardo Ardavín”.[11] Não localizamos informações sobre o citado Cobarruvias. Entretanto, sobre Ardavín Migoni, a informação é abundante. Considerado como um dos hierarcas do Yunque, Ardavín foi vice-reitor da Universidad La Salle entre 1970 e 1974, cargo que lhe serviu para fomentar o trabalho de recrutamento para o Yunque nas diversas instalações educativas. Chegou a ser um dos chefes nacionais da organização clandestina (Delgado 2003)[12].

Outra fonte de ingressos econômicos do MURO seria o grupo de Guillermo Guajardo Davis, “por meio de seu secretário, o refugiado cubano Carlos Lamar”[13]. Guajardo Davis foi presidente da Confederación de Cámaras Industriales de los Estados Unidos Mexicanos (CONCAMIN) entre 1948 e 1950, lugar que lhe rendeu a simpatia do empresariado, que em 1961 o propõe como diretor fundador do Consejo Nacional de Publicidad (CNP)[14]. Organização considerada peculiar dentro da constelação de organizações empresariais, pois seu objetivo não é defender os interesses econômicos de um grupo, mas de “influenciar nos valores que, de acordo com seus dirigentes, devem prevalecer na sociedade mexicana” (Ruíz Ocampo 1999, 12).

Ainda sobre as entradas econômicas do MURO, outro informe aponta que Luis Felipe Coello, presidente do MURO desde sua fundação, funcionava como enlace com o engenheiro Alfredo Medina Vidiella,[15] membro distinguido do Frente Cívico Mexicano de Afirmación Revolucionaria (FCMAR). O FCMAR surgiu como uma reação ao Movimiento de Liberación Nacional (MLN) que, encabeçado pelo general Lázaro Cárdenas, reunia um amplo espectro político que ia do centro à esquerda. Sua bandeira de luta era a defesa da Revolução Cubana.[16] O FCMAR, então, no seu manifesto publicado em 1961, fazia um chamado à sociedade civil para se organizar na margem de qualquer partido político para impedir a infiltração de doutrinas alheias

[...] que disfarçadas de um falso radicalismo pretendem precisamente suprimir as instituições democráticas, para substituí-las por um regime totalitário que acabaria com nossas liberdades e que, ao destruir a pátria, lar e família, terminaria para sempre com as formas tradicionais da vida mexicana (Briz 2002, 105).

A Frente reunia empresários de Monterrey, Puebla e da Cidade do México. Entre os militantes de maior renome podemos citar os ex-presidentes Abelardo Rodríguez (1932-1934) e Miguel Alemán Valdés (1946-1952), ambos representantes da facção direitista do PRI, e empresários de sucesso após suas respectivas presidências.

Agora, passando para o tema dos métodos do MURO, na documentação da DFS se menciona a relação do grupo com alguns nomes do exílio cubano anticastrista. Questão com poucas referências na historiografia. Encontramos, por exemplo, o nome de Henri Agüero Garcés, que participou de um atentado à dinamite contra as instalações do jornal, considerado de esquerda (El Día), em 1965. O MURO reclamou a autoria do atentado. Agüero Garcés ainda é apontado pelo jornalista Álvaro Delgado como integrante do Movimiento Nacionalista Cristiano, organização com sede em Miami, Florida (Delgado 2003). O agente da DFS se refere à confabulação dirigida pelo MURO e à utilização da experiência contrarrevolucionária dos grupos cubanos.

O objetivo da aliança, segundo a informação secreta, foi “planejar atentados terroristas no México com o propósito de obrigar nosso governo a mudar sua política com Castro Ruz”.[17] A esse respeito, num discurso presidencial de 1968, Díaz Ordaz apontava, sem chegar a explicitar o nome do destinatário da mensagem, que “o tempo fará compreender a razão de quem, equivocadamente, tentam lastimar o México, porque persiste em se manter generosamente aberto para o povo cubano, sem distinção de divergências ideológicas ou políticas” (Díaz Ordaz 2006, 248).

A DFS registra duas viagens com destino a Miami realizados por Plata Moreno e seu “segundo” no comando, Luis Felipe Coello. A finalidade das viagens era se reunir com “o agente anticastrista Aldo Rosado e com um senhor de sobrenome Dorticós, sobrinho do Presidente de Cuba (1959-1976), quem, ao que parece, se diz inimigo político de seu consanguíneo”. O anticastrista Aldo Rosado Tuero fundou na década dos sessenta o jornal Acción, órgão de difusão do Movimiento Nacionalista Cristiano, anteriormente referido. Rosado Tuero era o Chefe Nacional dessa organização[18].

Na avaliação da inteligência estatal, Plata Moreno e Coello, “que inicialmente atuaram como católicos e anticomunistas sinceros”, passam por um processo de radicalização: “se fanatizaram e agora se manifestam com verdadeira fobia contra o atual regime do Senhor Presidente Díaz Ordaz”.[19] Mesmo sem aprofundar na estrutura clandestina do Yunque, mas com os indícios da rede de relações e financiamentos que providenciou MURO, a DFS apontava para a transcendência da simples organização das juventudes católicas universitárias. Numa avaliação final, o agente comenta que o MURO:

[...] dá-se à tarefa de organizar homens de negócios, industriais, comerciantes, profissionais e padres de família que lhes servem para se apoderar de associações cívicas, partidos políticos de oposição, câmaras de comércio, centros patronais, como meios para alcançar o poder[20].

Os agentes que deram continuidade às atividades do MURO não chegam a elucidar a estrutura e objetivos do Yunque. No transcorrer dos relatórios encontramos um indício sobre a existência de vínculos entre Luis Felipe Coello e algum membro da hierarquia da Igreja católica ou do setor empresarial. Porém, apenas as atividades dos jovens militantes católicos adquirem um destaque especial. Uma possível explicação pode ser o fato de que o próprio Estado instrumentalizou essas organizações estudantis para não ter que intervir diretamente na confrontação com a esquerda nos espaços universitários.

As atividades do MURO resultaram benéficas para o apontamento e localização das principais lideranças de esquerda nos centros educativos. Cabe mencionar que os métodos de protesto do MURO variam radicalmente em termos da aplicação da violência. Um primeiro nível – menos violento – centrava-se na organização de protestos contra intelectuais universitários vinculados a ideias de esquerda, ou simplesmente com posturas críticas. Temos por exemplo a descrição do protesto encabeçado por Luis Felipe Coello contra o intelectual Rubén Bonifaz Nuño,[21] que em 1964 foi nomeado diretor da Revista Universidad Nacional e da Gaceta Unviersitaria, “por se caracterizar com ideologia de esquerda”. No ato da toma de posse os muristas apareceram para gritar contra o intelectual.

Outra atividade frequentemente registrada nos relatórios era a realização e conferências dentro das instalações universitárias, sempre presididas por Coello. A DFS reportou a realização da palestra intitulada “O papel da juventude no mundo atual”, realizada na Faculdade de Química da UNAM. Os convidados foram membros da Juventud Estudiantil Católica, da Liga Nacional de Estudiantes Mexicanos, do Frente Estudiantil “Newton”, e da Sociedad de Alumnos de la Facultad de Química[22]. Todas, sem mais, organizações de direita. Não temos informação sobre o acolhimento dos eventos pela comunidade universitária.

Sabe-se, também, da sistemática colocação de “periódicos murales”, cartazes em grande formato colados nos muros das instalações universitárias. Um relatório de 1974 traz a informação de um agente infiltrado na Preparatória No. 9 da UNAM. O agente transcreve o texto: “os estudantes não devem aceitar ideias exóticas como o comunismo, socialismo, etc., alheias à pátria e às entidades estudantis do país que somente fomentam a desorientação e a divisão entre os estudantes. Morra o comunismo como câncer da humanidade”. O agente também repara no desenho gráfico do mural, onde se plasma uma suástica nazista junto à mensagem intimidatória: “se aprecias tua integridade física, não mutiles ou destruas este mural”.[23]

O amedrontamento, como vimos acima, era uma arma frequentemente usada nas práticas dos muristas. No relatório intitulado “Antecedentes e atividades de Luis Felipe Coello Macías”, aponta-se que Coello organizou um “comando” de nome “Mariano”, composto por estudantes dos colégios privados Cristóbal Colón, México, Tepeyac, e da Universidad Iberoamericana (todos da rede lasallista). O objetivo do “comando Mariano” era a confrontação direta contra o grupo “Linterna” da Escuela de Economía da UNAM. Na Escola, o grupo de Coello foi expulso pelas autoridades após “queimar uma fotografia de Fidel Castro”, agredir e ameaçar a estudantes considerados de esquerda. Outra das demandas do comando nessa ação era a exigência de que fosse “reduzido o horário às aulas de marxismo”[24].

A prática mais comum do MURO, porém, é a conformação de corpos de choque com métodos paramilitares. Num relatório de 1966, relata-se o confronto com estudantes da Preparatoria No. 7 da UNAM. O conflito iniciou-se quando os estudantes proibiram a entrada do MURO, que pretendiam vender seu órgão de difusão dentro das instalações.[25] Sem a adesão esperada por parte dos estudantes, somente alguns poucos adquiriram exemplares. A irritação chegou quando os muristas perceberam que os estudantes que tinham comprado o Puño iniciaram um comício denunciando as posições abertamente fascistas da organização, contidas na publicação. Os exemplares foram queimados. No dia seguinte:

[...] chegaram cinquenta muristas aproximadamente, penetraram no interior das instalações ao grito de “en fila”. Os que não levavam armas fizeram guarda de karatê; os demais portavam punhos de ferro, varas de metal, facas, navalhas, antebraços metálicos e paus com pregos[26].

Finalmente, os estudantes conseguiram – mesmo sem a intervenção oportuna das autoridades da escola e com a chegada demorada dos corpos policiais – repelir a invasão dos muristas. Não temos notícias de feridos graves nesse confronto. Estes ataques de tipo paramilitar se tornarão recorrentes até a década dos oitenta dentro das instalações universitárias.

Em outro informe classificado como confidencial e urgente, exatamente um ano após o massacre de estudantes de 1968, ou seja, em 2 de outubro de 1969, o agente apostado no Instituto Politécnico Nacional informa sobre uma reunião de vinte dirigentes de diversas escolas e faculdades, no intuito de organizar as atividades para lembrar a fatídica data. Além de relatar os acordos, o agente chama à atenção sobre o “arteiro assalto” do espaço estudantil ocupado pelo Comité de Lucha da Escuela Superior de Ingeniería Mecánica y Eléctrica (ESIME). Adverte, de igual forma, sobre a pichação deixada no lugar: “Primeiro aviso do MURO”.

Apesar da longa experiência enfrentando os métodos da organização de direita, a avaliação dos estudantes, desta vez, apresenta uma divergência. Eles dizem estar

[...] seguros de que foi o grupo de choque que têm o Governo do Distrito Federal, para repelir todo movimento revolucionário dos estudantes e operários. Disseram que o mesmo tinham feito na Preparatoria Popular, onde deixaram letreiros assinados pelo MURO.

Por volta de 1969, os estudantes tinham certeza da existência de grupos paramilitares organizados pelo governo do Distrito Federal, aos que chamam “Los Halcones”, “Los Vampiros” ou “Los Guante Blanco[27]. Identificados como íntimos colaboradores do Serviço Secreto, trabalhavam como apoio para as corporações policiais. Na desconfiança com que os estudantes avaliaram a autoria do MURO nos atentados contra as instalações universitárias, podemos perceber que existe uma linha muito tênue para diferenciar os paramilitares de direita com os do Estado.

Os relatórios da DFS poucas vezes apresentam uma análise de informação. Geralmente se resumem numa compilação de informações baseada, sobretudo, no que os agentes escutam em reuniões, nos corredores de centros educativos, nas cafeterias. Considerando o anterior, já na década de setenta, um agente aponta que:

[...] Entre os diversos setores sociais desta Capital, há rumores de que os elementos do MURO e do organismo denominado “Boinas Verdes” são os autores da colocação das bombas que explodiram ontem a noite em diversos locais do Distrito Federal, com o objetivo de criar confusão e fazer crer à opinião pública que foram estudantes ressentidos por frustrar sua manifestação do sábado 10 do [mês] atual[28]

Pela informação consultada, não conhecemos nenhuma organização ou corporação mexicana denominada “Boinas Verdes”. Ou melhor, sabemos que esse é o nome do esquadrão de elite antisubversivo do exército dos EUA, denunciado por praticar e ensinar técnicas de “tortura, assassinatos seletivos de prisioneiros e combatentes, contribuir nas matanças de indígenas, treinar grupos paramilitares, etecétera, nos países chamados eufemisticamente ‘nações hóspedes’” (López y Rivas 2012, 46). Ou seja, nos regimes que solicitam sua assessoria[29].

Na avaliação dos ataques perpetrados em 1972, indica-se que:

as características dos fatos têm o selo inconfundível do grupo dos “Boinas Verdes” que na América Central e do Sul propiciaram alianças entre fanáticos e técnicos devidamente treinados nesse tipo de atos e, nesse caso, os membros do MURO, considerando-se que as perícias sobre os restos dos explosivos demostraram que os autores são peritos na matéria[30]

Finalmente, acrescenta-se, apesar da polícia ter prendido “alguns suspeitos”, os verdadeiros culpados estariam naquele momento fora do país. Não localizamos mais elementos que apontassem para essa linha de investigação. Porém, existem listas com os nomes de militantes presos e processados por atividades subversivas relativas a 1972, e em nenhuma delas há referência a militantes do MURO condenados ou julgados por sabotagem, terrorismo ou ataque às vias públicas[31].

 

Rumores de golpe de Estado

As atividades da direita como visto, não se restringem ao âmbito universitário. Durante o sexênio do presidente Echeverría aparece um fenômeno novo dentro das práticas políticas da oposição de direita: a implantação sistemática de rumores desestabilizadores.

Em 1973, a defesa do processo político chileno, a condenação ao golpe de Estado, mas, principalmente a recepção de exilados sul-americanos mobilizou de novo os setores anticomunistas mexicanos, e de uma forma ainda mais agressiva. Embora contemos com registros de rumores prévios a 1973, que vão até o fim do mandato de Echeverría, nota-se uma mudança no destinatário do rumor. Em 1971, por exemplo, sobre uma campanha oficial de vacinação de crianças contra o tifo em escolas públicas, dizia-se que na realidade estavam aplicando medicamentos para a esterilização de meninos e a destruição do útero das meninas (Agustín 2013). Ainda que o rumor tivesse seguido uma rota que abrangia boa parte do país, na cobertura feita pelo jornalista Manuel Buendía, foi no estado de Guerrero que o pânico teve maior reverberação entre as classes menos favorecidas.

São várias as teorias sobre os métodos para espalhar rumores. Para Buendía, utilizavam-se “camionetes de som, que surpreendentemente percorreram alguns bairros operários para desaparecer imediatamente com igual mistério” (Buendía 1984, 32). Para a DFS, as falsas notícias eram propagadas por jornais locais. Aponta-se que os rumores “têm produzido psicoses entre os pais de família, e estão sendo desmentidos categoricamente por toda classe de atividades tanto municipais como estaduais e federais”[32]. Junto com estas manobras mediáticas soma-se o fato de que o Partido Acción Nacional (PAN), “tomou por certa a existência daquela classe de vacina e exigiu contas publicamente ao governo” (Buendía 1984, 32). Ardil político que sustentava o rumor e promovia a generalização do pânico.

Segundo a DFS, o fim do pânico foi possível pela matéria aparecida noutro meio impresso, El Sol de Medio Día, intitulada “Prenderam os monges que injetavam crianças em Acapulco”. A redação afirmava que foram presos um par de norte-americanos, homem e mulher, de nome Arthur P. Aerutis e Vanimpe Aprudiff. Ambos foram flagrados vestidos como religiosos e efetivamente injetando sustâncias químicas em crianças da entidade. Evidentemente, disse o jornal, eram “perturbados mentais”[33].

Com estes precedentes, podemos deduzir dois possíveis centros geradores do rumor. Por um lado, considerando que o estado de Guerrero é um dos que apresentaram maior atividade guerrilheira desde a década de sessenta, difundir a presença de sujeitos estranhos e suspeitos com a finalidade de danar crianças, poderia ser uma maneira de desarticular as possíveis redes de solidariedade em torno aos guerrilheiros que permaneciam na clandestinidade. Ou melhor, além de negar ajuda a pessoas desconhecidas, também poderia ajudar para que os próprios moradores da região denunciassem qualquer movimento fora do normal.

De maneira inversa, lembremos que o estado estava submerso na lógica contrainsurgente, estava militarizado. O exército dedicava-se publicamente a atividades que teoricamente conhecemos como “ação cívica”, em que o assistencialismo social nas regiões de maior força guerrilheira era uma constante[34]. Assim, o exército geralmente comandava as campanhas de vacinação, sendo que o rumor de que tais campanhas seriam danosas às crianças, produziria, além do repúdio, a mobilização dos moradores para exigir a expulsão dos militares da região. Infelizmente não temos mais informação sobre os desdobramentos dos rumores nas regiões de intensidade guerrilheira.

Anos depois, entre 18 e 21 de novembro de 1976 – um mês antes da transmissão de poderes como prevista e que tradicionalmente ocorre no primeiro de dezembro – vários rumores com outras características tornavam-se sérias ameaças para a segurança nacional. Com elementos da inteligência apostados em vários focos reprodutores de rumores, temos um panorama das contradições entre as versões dos rumores e algumas das reações populares perante uma ameaça que nunca tinha sido uma possibilidade real para essa geração de mexicanos: um golpe de Estado iminente.

Primeiro, dizia-se o golpe de Estado seria realizado contra o governo de Echeverría, seja pela ação do terrorismo comunista, quer por uma suposta facção de militares ultranacionalistas. Numa segunda versão, o golpe seria dado pelo próprio mandatário no intuito de instaurar reformas de cunho socialistas.

Dependendo o local, a fonte dos rumores e as reações variaram, os detalhes aumentavam. Vejamos alguns exemplos.

Na cidade de Jalapa, Veracruz, a imprensa local foi identificada pela DFS como os propagadores dos rumores. Citando uma breve matéria do jornal ABC em que se destaca que “dentro da campanha de rumores, hoje transcendeu, de última hora, que a esposa do presidente Echeverría e seu filho Pablo tinham sido vítimas de um atentado em que pereceram”. Enquanto que nas ruas, registra o agente, se falava sobre a possibilidade de que as sucursais bancárias “poderiam ser dinamitadas”[35]. Neste caso, apelando aos métodos da esquerda.

Neste mesmo sentido um agente reporta que num bairro da cidade de Guadalajara, sem mencionar o local específico, encontraram-se as seguintes pichações:

Proletariado, a resposta operária à crise econômica deve ser a revolução socialista.

Proletários, nenhum apoio às oligarquias financeiras e seu governo.

Proletários, respondamos pela revolução à “política de cinturón apretado” de Portillo.

Proletários, o 20 de novembro triunfaremos.

Assina: Revolución Proletaria[36].

Sobre este informe, por não ter mais dados em torno ao suposto grupo que realizou as pichações, podemos especular duas coisas. Primeiro, que a esquerda organizada aproveitou o clima de nervosismo para tentar fazer um chamado ao operariado mexicano. Outra possibilidade é que uma ou várias pessoas que orquestraram os rumores teriam inventado algum nome que referisse à esquerda para apoiar a hipótese de que o governo de Echeverría tinha um pacto com grupos “marxistas” para dar o golpe. O nome “Revolución Proletaria” bem poderia pertencer a algum grupo de esquerda, porém, não temos elementos para confirmar sua existência.

Sob a hipótese da possibilidade de que um grupo de esquerda desse um golpe, a DFS informa a respeito das demonstrações de preocupação expressadas nos EUA. Jack L. Richardson, subchefe da Border Patrol em Del Río, Texas, assim como Lee G. Kreeimer, chefe de migração nessa mesma cidade, comunicaram-se telefonicamente com o chefe da Oficina de Población da cidade Acuña, no nortenho estado de Coahuila, Francisco González Quintanilla. Eles disseram ter informação sobre a possibilidade de intensificação dos distúrbios na fronteira. A informação provinha de um suposto telegrama vindo de McAllen, Texas, afirmando “que havia terroristas nas pontes de Hidalgo, Tex. e de Progreso, Tamps. [Tamaulipas], brigando com oficiais”.[37] A informação, aponta o agente, foi negada pelos funcionários mexicanos que aproveitaram para alertar os norte-americanos sobre a diversidade de informações e a pouca clareza sobre a origem delas.

Por outro lado, na Cidade do México se reportou à circulação de um rumor no Instituto Politécnico Nacional. Um agente não identificado aponta que em várias escolas do Instituto estão recomendando que os alunos avisassem seus familiares para que não assistir “o desfile cívico que se realizará para comemorar o aniversário da Revolução Mexicana”. Afirmavam que seria o espaço em que se deflagaria o “autogolpe” de Echeverría. Para os estudantes, uma facção radicalmente nacionalista próxima do mandatário seria a articuladora, pois

[...] o Lic. Luis Echeverría é filho de pais estrangeiros, motivo pelo qual seus familiares não são conhecidos como no caso de sua Senhora e é por esta causa que tem afetado tanto à economia nacional; pois em nenhum momento lhe interessam os mexicanos, sendo que unicamente se preocupa por sua família e seus amigos estrangeiros[38].

Uma série de rumores que “a cada momento se tornam mais intensos” apontam que o presidente Echeverría tinha sido ferido por uma bala no estado de Sonora, enquanto realizava uma visita oficial. Pelo boato, o atentado seria o motivo real pelo qual suspendera sua visita ao estado de Durango, e não por causa de uma gripe, como foi informado oficialmente. O agente registra no relatório que paralelamente corria palavra de que o general Hermenegildo Cuenca Díaz, secretário da Defensa Nacional, junto a outros militares de alta patente, teriam sido presos, “apontados de estar preparando um golpe de Estado nos próximos dias”[39].

Na cidade de Reynosa, no fronteiriço estado de Tamaulipas, comentava-se que o golpe de Estado era deflagrado pelo próprio presidente Echeverría, que “tratará se reeleger por mais dois anos”. O agente ouviu essa mesma versão em alguns pontos de reunião, como restaurantes e cassinos. Enfatiza que inclusive “alguns canais de televisão e rádio dos Estados Unidos tem dado como notícia” o golpe. Segundo a análise do agente, essa situação reforçou o boato, fazendo com que qualquer notícia que desmentisse o rumor fosse desconsiderada de forma geral pela população[40].

Nesta mesma linha, na cidade de Zacatecas, registrou-se que “pessoas dos diferentes círculos sociais” prevêem a possibilidade de que ocorram distúrbios em vários estados da república, “principalmente em Sonora com o fim de levar a cabo um golpe de Estado”. Como mencionamos anteriormente, o mandatário encontrava-se em Sonora antes do 20 de novembro. Menciona-se, também, que “há um distanciamento entre o Lic. Luis Echeverría Álvarez, Presidente do México e o Lic. José López Portillo, Presidente eleito”.[41] Nesta cidade, deixa-se ver a possibilidade de que o golpe seja realizado com a finalidade de evitar a presidência de López Portillo. Esta informação foi providenciada por um prefeito do estado de Baja California, Fernando Marqués Arce, que por sua vez afirmou ter sido informado pela Polícia Municipal sobre o possível golpe, um decreto de estado de exceção, “e que o Presidente da República se fará responsável provisoriamente pelo Poder Executivo Federal, para, posteriormente convocar novas eleições”[42].

O falatório do golpe se valia de métodos que nos lembram do “panelaço chileno”. O congelamento das contas bancárias mobilizou a população de classe media em várias cidades. As reações tiveram diversas intensidades. No relatório correspondente à cidade de Tijuana, Baja California, o agente cita conversações com empregados bancários, e inclusive com o subgerente do Banco Internacional de Baja California. Os entrevistados apontam que até esse momento não se tinham registrado retiros ou trocas de divisas que fossem significativos para alarme. Por outro lado, assinalam que, apesar dos rumores e da evidente “falta de confiança por parte dos correntistas, não se registrou nada anormal e que seguem as mesmas atividades comerciais”[43]

O agente de Reynosa registra as repercussões em quanto à possibilidade de incremento no preço dos energéticos. O agente é enfático acusando os próprios funcionários federais que no meio da crise de pânico “afirmam que não sucedera nenhuma medida de que não subiriam os energéticos e posteriormente o fazem”[44]. Por outro lado, a iminente desvalorização da moeda mexicana provocada pela crise política também provocou um movimento anormal de operações bancárias. No estado de Tlaxcala “registraram-se compras de dólares de mais de 300 mil dólares”[45].

Alguns agentes lançam nos seus informes algumas hipóteses sobre a origem dos rumores. Como mencionamos, não existem análises sérias, simplesmente se realizam afirmações sem fundamento, geralmente baseadas em outros rumores ou preconceitos. Num relatório da Cidade do México, de maneira categórica se assevera que:

A onda de rumores com diferentes versões entre amas de casa, empregados, trabalhadores, lideranças menores de alguns organismos políticos e chefes dos mesmos, são consequência de que agitadores como os do Partido Laboral Mexicano [...] faz vários meses tem-se dedicado a atacar funcionários e ex-funcionários do atual regime[46].

O elemento em que se fundamenta esta acusação é a presença de nomes de funcionários do governo de Echeverría apontados como fantoches do governo norte-americano de Jimmy Carter, através do órgão de difusão do Partido Laboral Mexicano. Ou seja, podiam ler-se más intenções nessas acusações. 

Em outro informe, com item correspondente à situação apresentada na cidade de Tijuana, que trata da distribuição do jornal Evening Tribune dos EUA, na primeira folha se lê: “Tentativa de golpe do México é negada”. O revelador do relato não é a transcrição da matéria do jornal, que, de fato, não aporta nenhum dado relevante. Mas, nas últimas três linhas, que fogem totalmente da questão do jornal norte-americano, sim há. Não são dadas explicações, simplesmente se menciona que “chegou-se a saber que estes rumores estão sendo propalados pelas secretarias dos bancos e em grupos religiosos, como os Caballeros de Colón, que se encarregam dos mesmos”[47].

A partir desta informação, podemos juntar outros dados localizados num breve informe sobre Tlaxcala, onde se menciona que o rumor apareceu, pela primeira vez, em escolas de educação superior, ou seja, universidades. Especificamente “de estudantes tlaxcaltecas que assistem na Universidad Autónoma de Puebla”, como tínhamos dito, celeiro dos grupos anticomunistas estudantis antes referidos.

Finalmente, no relatório datado de 24 de novembro de 1976, destaca-se o boletim informativo da Central Nacional Campesina (CNC) distribuído nos principais jornais de circulação nacional, bem como entre os telejornais da empresa Televisa. A CNC se posiciona a respeito dos rumores de golpe e “denunciam que Andrés Marcelo Sada, manipulador do lembrete da COPARMEX, é ponta-de-lança do imperialismo e autor de atentados contra o México”. A denúncia está baseada no vínculo sugerido entre a intensificação dos rumores e uma importante greve em diversos setores promovida por Sada.

Sada é suspeito pela suposta retirada de capital do país para investi-lo em bens imóveis nos EUA. Motivo pelo qual é acusado pela central camponesa de traição à pátria:

Deixamos assentado que, com suas fobias, seus preconceitos e sua perversidade antinacionalista, compromete seriamente o setor que diz representar e que os verdadeiros industriais logo expressarão seu repúdio a quem é autor dos murmúrios contra o México e quem pretende, com a caricatura grotesca de Pinochet, dar lições de direito e de moral[48].

Desta maneira, o informe chama a atenção de que o boletim foi impresso na Câmara dos Deputados. Considerando que a CNC é uma organização oficialista, alinhada com o presidente, poderíamos considerar, pois, que ela é voz que recolhe os interesses do Estado evitando, ao mesmo tempo, que o governo confronte diretamente aos setores empresariais.

Agora, considerando o anterior, assim como algumas conclusões expostas pelos agentes nos relatórios, podemos depreender dois possíveis sujeitos propagadores dos boatos: os grupos católicos de ultradireita e os empresários encabeçados por Andrés Sada. Ambos grupos, como vimos no item anterior, compartilham objetivos, métodos e ideologia. Isto é, ainda que não fossem parte de uma mesma organização, também não representam interesses antagônicos.

 

Plano Y e o Plano Z

Uma reveladora nota editorial assinada por uma das personalidades mais controversas do jornalismo mexicano, Salvador Borrego Escalante[49], nos apresenta um hipótese muito mais elaborada sobre o desenrolar do suposto golpe de Estado no México.

Para o escritor existe uma série de sinais que demonstram as tentativas do presidente Echeverría para diminuir o peso político – e militar – das forças armadas. Os tradicionais desfiles militares realizados anualmente em comemoração ao início da luta pela independência mexicana (16 de setembro) foram a fachada perfeita para mostrar os planos presidenciais.

Na lógica desenvolvida por Borrego, uma primeira debilidade expressa era a “feminização” da corporação castrense:

Seus vestidos e uniformes eram dos mais variados: desde saias longas típicas, até minissaias, micro-saias e algo assim como uma aproximação de biquini. Quanto aos passos de marcha, era uma mescla de paso redoblado e paso de camino, em momentos com marcadas ondulações de cadeira[50].

A participação de um total de mil quinhentos e setenta mulheres enquadradas nas Forças Armadas se justificava pelo argumento oficial de que “se a mulher desfruta dos mesmos direitos do homem, tem as mesmas obrigações”. Contudo, isso é uma mostra da debilidade da corporação. Borrego ironiza: “Quer-se igualar o que é por natureza diferente? Se da mulher se lhe quer fazer soldado, não se pretenderá também converter o homem em mãe?”.

Para além da suposta fragilização do corpo militar pela presença sexual e pela paquera da mulher mexicana, o verdadeiro problema era a insistência oficial em que o exército tem uma “função social”. Versão que “deslava, distorce e mutila as funções especificamente castrenses, até converter a milícia numa sociologia de partido”.

Na visão de Borrego, ambas as modificações são idênticas nos seus resultados às transformações “progressistas” que se pretendem introduzir na instituição mundialmente mais sólida, a Igreja Católica. Isto é, o autor observa na “desmilitarização” do Exército e no paralelo processo de “dessacralização” da igreja, um perigoso buraco por onde os movimentos revolucionários “de tipo marxista” podem ir-se acomodando. Cita alguns exemplos internacionais para, segundo ele, entender o que está acontecendo no México:

Para que o marxismo pudesse triunfar na URSS foi necessário acabar com os comandantes e a oficialidade do Exército. O comunismo foi vencido na Espanha pelas forças armadas. O movimento marxistoide de Goulart no Brasil foi desbaratado também pelo Exército. Em Cuba, o marxismo pôde consolidar-se até que esquartejasse o exército e o substituiu com milicianos e comandos soviéticos.

O autor alerta: para que o marxismo seja implantado, é necessário fragilizar as cúpulas dos exércitos nacionalistas. Por outro lado, o fortalecimento desses exércitos ajuda à destruição dessas forças contrárias à pátria. Para Borrego, México está dentro do grupo “progressista”, seguindo os exemplos impostos pelo governo de Allende no Chile.

Borrego ressalta, enfim, os métodos empregado por Allende e o suposto “Plano Z”. Devido à perda de apoio popular para a instauração total de um Estado socialista, o mandatário chileno tentara assassinar os chefes do exército, no intuito de substituí-los por milicianos “fanatizados no socialismo”. Adverte que Echeverría está caminhando nesse mesmo sentido com o desfile do corpo feminino e a “fragilização de suas tradições militares com o plausível fim do ‘serviço social’, e doutrinamento de seus mandos com aulas de ‘civismo’ e de ‘história’ que são materialismo dialético”[51].

Sob esta mesma linha, localizamos no acervo da DFS um documento assinado por uma suposta “Unión Defensora del Ejército Mexicano”. Escrito como espécie de manifesto dirigido “a todos os Chefes Oficiais e Classes de nosso Glorioso Exército Nacional”, o documento se intitula “O comunismo inimigo mortal dos militares”. Nele se enfatiza que, em geral, os exércitos nacionalistas são os inimigos naturais das organizações comunistas, de fato, o maior obstáculo para seu triunfo. Descreve-se, também, as táticas utilizadas para debilitar a corporação castrense: infiltração, propaganda, e propagação de atos imorais que contribuam à indisciplina, que, portanto, corrompam a moral militar. Havia também assassinatos de chefes e oficiais que se opunham à dominação comunista.

A tática mais eficaz para a destruição dos exércitos, segundo o panfleto, consiste em:

desvirtuar os verdadeiros fins e objetivos do exército, fazendo que estes se dediquem a atividades alheias a suas verdadeiras funções, que são a defesa e salvaguarda da nação e suas instituições contra seus inimigos internos e externos, e se distraiam em ações de chamada “Labor Social” ou outro tipo de atividades totalmente alheias e contraditórias à verdadeira finalidade do exército mexicano, como são, por exemplo, as chamadas “Granjas Coletivas Militares” onde atualmente os comunistas infiltrados em nosso atual governo querem que se concentrem as energias de uma grande parte de nossos contingentes para distraí-los de sua missão de salvaguarda da pátria, e para que os chefes oficiais e tropa vão-se acostumando a viver sob um regime de “coletivização”, que é o mesmo que um regime comunista[52].

Nesta análise, o governo estaria infiltrado pela grande quantidade de exilados “comunistas chilenos, espanhóis, uruguaios, etc., que covardemente fugiram de seus países quando os governos patriotas e os exércitos desses países lhes impediram que seguissem seu nefasto trabalho”.

Da mesma forma que Salvador Borrego, o panfleto cita o “Plano Z” chileno que, como mencionado acima, consistia na eliminação dos mandos militares nacionalistas. Segundo o ponto quatro do plano, citado literalmente, os guerrilheiros que funcionavam como guarda-costas de Allende, ou melhor, o Grupo de Amigos Personales (GAP) constituído por militantes do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR)[53], atuariam de maneira coordenada aproveitando as concentrações militares das comemorações à pátria. Este dado é importante para considerar que o rumor alcançou o grau máximo de paranoia um dia antes das comemorações da Revolução Mexicana.

O panfleto cita, além do Plano Z, o livro intitulado Peligro: Subversión en América, atribuído ao general Manuel Benítez, em que se descrevem as táticas utilizadas pelas forças comunistas lideradas por Sukarno, na Indochina, com o objetivo de assassinar militares. Tentativa que finalmente se viu frustrada pela ação nacionalista do exército com grande apoio popular. Cita, também, os casos em que esta tática comunista teve sucesso. As referências, especificamente, são a Revolução Russa e a formação do Exército Vermelho, assim como a experiência cubana, na qual o “tirano Castro Ruz”, uma vez que tomou o poder, em 1959, “fuzilou os militares que não se subjugaram”.

Um sinal de alerta se deu no tradicional desfile militar do 16 de setembro de 1976, no qual Raúl Castro participou como convidado especial da presidência, enquanto que “em Santiago de Cuba mandou metralhar 81 membros da oficialidade do exército cubano alinhados na frente de um buraco previamente aberto com um buldôzer onde depois foram sepultados”. Perguntam: “Será isso o que querem implantar no México os comunistas ‘Oficiais’ e os comunistas infiltrados no PRI que estão reproduzindo as mesmas táticas que os comunistas usaram em tantas outras ocasiões?”. 

Este peculiar documento de cinco páginas está acompanhado da fotocópia de um envelope cujo remitente é o major José M. Pulido Gómez, da Escuela Militar de Ingenieros. Possivelmente, o manifesto circulava dentro da instituição. Na historiografia sobre as forças armadas mexicanas, não existe nenhuma referência à citada Unión Defensora del Ejército Nacional[54].

Embora não encontremos documentos da inteligência que tornassem explícita a relação dos rumores com algum grupo específico, destacamos o fato de que, desde 1974, Echeverría alertava: “Golpes de Estado em alguns países latino-americanos foram precedidos pelas campanhas de rumores que se originam em alguns círculos empresariais irresponsáveis ou que fomentam estes atos de terrorismo para suscitar a confusão” (Echeverría 2006, 181). Um ano depois, o mandatário declarava que:

Grupos minoritários suscitam, todavia, anacrônicas querelas e tentam minar a autoridade das instituições. Aspiram a predominar atrelados a seu poder econômico. Supõem, ainda, que as transações na cúspide podem substituir as verdadeiras soluções e perpetuar, para eles, uma era de facilidade e de abundância. Ignoram o curso da história e pretendem, de forma estéril, detê-la. Entusiasmaram-se muitos desses grupos quando ocorreu o golpe de estado na república irmã do Chile. São grupos econômicos, poucos, por sorte, cada vez menos (Echeverría 2006, 268-269).

Echeverría se vale de uma caracterização irônica dessa elite quando sugere que “si muitas horas que se dedicam ao [jogo de] canastra uruguaia, aos desfiles de modas e a murmurar contra o próximo, se dedicassem um pouco a servir ao próximo, avançaria muito o México”. Isto é, aparentemente, para o mandatário as origens dos rumores estavam claras (Echeverría 2006, 281).

 

Considerações finais

A política externa mexicana é, sem dúvida, o espaço discursivo onde se aprecia o nacionalismo revolucionário por excelência. O apelo à luta do revolucionário povo mexicano é o tema que legitima o sistema político mexicano. Aporta elementos para radicalizar a oposição aos ditados estadunidenses. O asilo político, por exemplo, é uma bandeira levantada para criticar Estados firmemente apoiados pelos Estados Unidos, tornando-se, desta maneira, numa voz com moral suficiente para liderar o grupo dos Países Não-Alinhados.

Este movimento estratégico do governo mexicano teve duas repercussões. Por um lado, a legitimidade internacional ajudou a tirar os olhos de outros países dos processos repressivos internos. Receber asilados foi a maior demonstração internacional de que o México era um país democrático, alheio ao processo da Guerra Fria. Por outro lado, esse mesmo discurso tentou esvaziar as pautas da esquerda. Podemos apontar que a defesa da Revolução Cubana e do processo democrático chileno acobertava a repressão e aniquilamento da oposição interna, sob a premissa de que num país aberto e democrático esta não podia ser outra coisa mais que movimentos artificiais promovidos por agentes com interesse na desestabilização do sistema mexicano.

Enquanto isso, os setores conservadores entraram num processo de radicalização. Seu relacionamento com o Estado mexicano foi ambíguo. Por um lado, foi instrumentalizado. Os relatórios revisados a respeito da organização juvenil de ultradireita, o Muro, nos ajuda a entender este processo. A organização mencionada era um grupo de choque destinada a confrontar corpo a corpo as organizações de esquerda que atuavam nas universidades públicas. Dos relatórios conseguimos observar vários de seus métodos. Apesar de não estar cooptado pelo governo, o MURO ajudou no confronto aos elementos da esquerda nos momentos de maior organização estudantil antes e depois de 1968. Dessa maneira, o Estado não tinha que utilizar seus corpos repressivos. Ou melhor, quiçá os utilizava e atribuía a repressão aos paramilitares da direita.

Os mesmos relatórios nos ajudam a conhecer mais sobre a ultradireita mexicana e seus vínculos com importantes nomes do setor empresarial e político. Apesar da pouca clareza no que diz respeito à estrutura do MURO, assinalada como “fachada” de uma organização maior os informes vão construindo uma série de ligações que e patrocínios que, além de ter a questão católica como guia ideológico, tinha (e ainda tem) aspirações políticas. Observamos desta maneira, que muitos dos nomes apontados tiveram (e ainda têm) uma presencia política importante, sobretudo entre 2000 e 2012. Anos governados pela primeira vez desde 1929, por um partido que não era o da Revolução Institucional.

Avaliada como uma ameaça real podemos apreciar através dos relatórios da DFS como foram se desenvolvendo uma onda de rumores que, em poucos dias, chegaram até mesmo a colocar a possibilidade de um golpe de Estado. Com uma bagagem muito mais ampla que o histórico anticomunista mexicano, isto é, valendo-se de experiências latino-americanas recentes. Podemos avaliar, pelas próprias respostas dadas pelos discursos presidências, que a radicalização da política externa mexicana foi o pretexto perfeito para começar a encaminhar planos de desestabilização.

Finalmente, acreditamos que estes dois elementos – radicalização da política externa e radicalização da ação da direita – não apresentam uma relação direta. Ou seja, existem muitos mais elementos que atravessam a crise entre o governo mexicano e o setor empresarial de direita, como o assassinato de Eugenio Garza Sada pela Liga Comunista 23 de Septiembre, por exemplo. Porém, acreditamos que a resposta apelando para questões como a falta do caráter católico dos mandatários mexicanos ou semeando rumores nas Forças Armadas, os grupos de direita recorreram à reação contra a política externa possivelmente no intuito de gerar apoio nos setores que não estavam diretamente vinculados com os interesses empresariais.

 

 

 

Referências

Adame Goddard, Jorge. 2003. El derecho a la educación religiosa en México: Diez años de vigencia de la Ley de Asociaciones Religiosas y Culto Público en México (1992-2002). México: Instituto de Investigaciones Jurídicas/Universidad Nacional Autónoma de México.

 

Agustín, José. 2013. Tragicomedia mexicana: La vida en México de 1970 a 1982 (vol. 2). México: Debolsillo [E-Book].

 

Buendía, Manuel. 1984. La CIA en México. México: Océano.

 

Briz Garizurieta, Marcela. 2002. El Consejo Mexicano de Hombres de Negocios: surgimiento y consolidación. México: Dirección General de Estudios de Posgrado/Facultad de Ciencias Políticas y Sociales-UNAM.

 

Chabat, Jorge. 1986. Condicionantes del activismo de la política exterior mexicana (1960-1985). In: Garza Elizondo, H. (comp.). Fundamentos y prioridades de la política exterior de México, 89-113. México: El Colegio de México.

 

Coordinación Central de La Salle. 2014. Identidad. México. Disponível em: http://lasalle.edu.mx/identidad/distrito-mexico-norte/ [último acesso em: 14-06-2016].

 

Delgado, Álvaro. 2003. El Yunque; La ultraderecha en el poder. México: Plaza y Valdés.

 

Díaz Ordaz, Gustavo. 2006. Informes presidenciales. México: Dirección de Servicios de Investigación y Análisis, Subdirección de Referencia Especializada. Disponível em: http://www.diputados.gob.mx/sedia/sia/re/RE-ISS-09-06-13.pdf [último acesso em: 04-04-2015].

 

Echeverría Álvarez, Luis. 2006. Informes presidenciales. México: Dirección de Servicios de Investigación y Análisis, Subdirección de Referencia Especializada. Disponível em: http://www.diputados.gob.mx/sedia/sia/re/RE-ISS-09-06-14.pdf [último acesso em: 04-04-2015].

 

Ezcurra, Ana María. 1988. Intervención en América Latina; Los Conflictos de Baja Intensidad. Buenos Aires: Instituto de Estudios y Acción Social.

 

González Ruiz, Edgar. 2013. El Yunque: un libro sobre Ramón Plata. Revista Contralínea. 29 de setembro.

 

González Ruiz, Edgar. 2012. Los Ardavín. Revista Contralínea, 1 de Janeiro.

 

Jaso Galván, Azucena Citlalli. 2016. Terrorismo de Estado e guerra suja: Discursos e práticas da Doutrina de Segurança Nacional e da Contrainsurgência no México (1964-1982). Dissertação (Mestrado em História Social). São Paulo: Universidade de São Paulo.

 

López y Rivas, Gilberto. 2012. Estudiando la contrainsurgencia de los Estados Unidos: manuales, mentalidades y uso de la antropología. México: Semilla Rubí.

 

Reyes, José. 2009. El manual secreto de los GAFES. La Jornada, 14 de junho.

 

Salvador Borrego. 2008. vigencia de “La derrota mundial”. Proceso, 29 de dezembro.

 

Santiago Jiménez, Mario Virgilio. 2016. Entre el secreto y las calles. Nacionalistas y católicos contra la “conspiración de la modernidad”: El Yunque de México y Tacuara de Argentina (1953-1964). Tese (Doutorado em História Moderna e Contemporânea). México: Instituto de Investigaciones Dr. José María Luis Mora.

 

Universidad La Salle. 2016. Historia. México. Disponível em: http://www.lasalle.mx/somos-la-salle/historia/ [último acesso em: 14-06-2016].

 



[1] Díaz Ordaz apontava que: “O México é um país de profunda tradição revolucionária. Sua história, carregada de tragédias, é o resultado de grandes comoções estruturais que nem sempre foram do agrado de outras nações. Sabemos bem, porque sofremos em carne própria, o que é o isolamento na esfera internacional, a pressão externa, a crítica acerba e desapiedada, a incompreensão dos esforços realizados por um povo para construir um futuro melhor. Precisamente por essa experiência dolorosa compreendemos e respeitamos as tentativas de outros povos para resolver, por via própria, seus problemas materiais e espirituais, ainda quando não coincidamos com os caminhos e os métodos elegidos” (Díaz Ordaz 2006, 253).

Advertência: As traduções da bibliografia e dos documentos ao português são nossas.

[2] Echeverría pretendia que o México abandonasse seu lugar de espectador passivo perante os conflitos internacionais e discursivamente posiciona-se “ao lado dos países débeis, subjugados e explorados, e com isso, mantermo-nos fiéis aos princípios fundamentais de nossa política internacional; por realizar atos concretos e não somente declarativos para a união dos países do Terceiro Mundo e lograr, assim, melhores condições em sua relação com os países mais poderosos [...] Tudo isso consolida o prestígio da nação no âmbito internacional e amplia o conteúdo de sua independência (Echeverría 2006, 250).

[3] Lembremos que México foi o único país latino-americano que manteve relações políticas e comerciais com a ilha cubana. Da mesma forma, o governo mexicano fez fortes pronunciamentos denunciando o golpe de Estado contra o governo de Salvador Allende no Chile, ao mesmo tempo em que abria as portas do país para os perseguidos das ditaduras do Cone Sul. Ambos os casos apresentam uma disputa de narrativas com os grupos de esquerda, sobre tudo nos meios estudantis.

[4] Advertimos que estes documentos foram localizados durante a pesquisa para a dissertação de mestrado em História Social da Universidade de São Paulo, onde o foco não eram precisamente os grupos de direita, e sim, os discursos e as práticas da Segurança Nacional de três governos mexicanos (1964-1982). Por esse motivo, as referencias utilizadas aqui não esgotam a totalidade de relatórios produzidos sobre MURO. Porém, acreditamos que estas “amostras” possibilitam tecer um panorama. Existe, de fato, pouca produção científica sobre este tema, recomendamos a tese de doutorado em História Moderna e Contemporânea de Mario Santiago Jiménez (2016) que faz uma revisão exaustiva da história do MURO, para aprofundar nas suas características e métodos. 

[5] Plata Moreno nasceu na Cidade do México, em 1935. Estudou em colégios lasallistas na cidade de Puebla, depois ingressa no curso de engenharia na universidade pública, porém, manteve contato com os professores jesuítas e com a hierarquia católica da cidade. Na faculdade, ele intensifica a militância direitista. Foi assassinado a tiros na porta da casa de sua sogra, na Cidade do México em 1979. Assassinato que ainda não está resolvido.

[6] O livro intitulado Ramón Plata Moreno: Un cruzado da hispanidad y mártir de Cristo Rey. Breves y auténticas notas a 25 años de su muerte era visto unicamente entre os círculos de ultradireita. As notícias que temos sobre ele correspondem às notas dos jornalistas Álvaro Delgado (2009), publicadas na revista Proceso, e de Edgar González Ruiz (2013), na Revista Contralínea.

[7] Em português, é a ferramenta “bigorna”. O nome faz referência à solidez e firmeza que têm as bigornas nos constantes golpes para forjar o aço.

[8] Desde 1917 o ensino básico foi obrigatoriamente laico. O Artigo 3 Constitucional suprimia a educação religiosa em escolas públicas e privadas, reservando o monopólio do ensino fundamental para o Estado. Herança das disputas entre a Igreja e o Estado no século XIX, a educação pública era constitucionalmente antirreligiosa. Isto é, a educação religiosa estava banida por ser considerada nociva para a construção da Revolução, da Nação. Contudo, desde 1940 (após a presidência de Lázaro Cárdenas0, permitiu-se que os colégios privados ministrassem aulas de religião. Paulatinamente, prestigiosos colégios e universidades religiosas se implantaram no país (Adame Goddard 2003, 27). Por outro lado, os Irmãos das Escolas Cristãs chegaram no México a partir de 1905. Até 1914,haviam estabelecido colégios em Puebla, Saltillo, Monterrey, Morelia, Querétaro, Zacatecas, Cidade do México, Toluca e Torreón. Porém, os 196 franceses que integravam a congregação foram obrigados a fugir do país devido ao caráter jacobino da Revolução mexicana. Entre 1920 e 1938, retornam sigilosamente (Coordinación Central de La Salle 2014). Finalmente, no contexto da apressurada industrialização da economia mexicana, a Universidad La Salle inicia suas atividades em 1962, tornando-se, assim, a primeira universidade lasallista da América Latina. Atualmente, conta com 15 campi ao longo do território mexicano (Universidad La Salle 2016).

[9] Octaviano Márquez y Toriz foi arcebispo da arquidiocese de Puebla desde 1950 até 1975, ano da sua morte. Encabeçou as manifestações contra a autonomia e o crescimento dos setores de esquerda dentro da planta docente e discente da universidade de Puebla. Tornou-se o porta-voz da oligarquia do estado contra o comunismo. Particularmente ligado ao Frente Universitario Anticomunista (FUA, organização antecedente do MURO), é considerado, além de ideólogo, um dos financiadores desse grupo (DELGADO 2003).

[10] “MEMORANDUM: La UNAM víctima de la agitación promovida por MURO”, Distrito Federal, 04-04-68, AGN, IPS, Caixa 1448 B, Exp. 42, folhas 1-4.

[11] “Memorándum: La UNAM víctima de la agitación promovida por MURO”, Distrito Federal, 04-04-68, AGN, IPS, Caixa 1448 B, Exp. 42, folhas 1-4.

[12] Além desse trabalho secreto na década de setenta, Ardavín foi presidente da Confederación Patronal de la República (COPARMEX). A COPARMEX é um sindicato de empresários fundado em 1929 pelo industrial Luis G. Sada com a finalidade de se constituir num instrumento de pressão política que protegesse os patrões dos artigos constitucionais que beneficiavam os trabalhadores. Também se contrapôs às grandes centrais sindicais de operários e camponeses que funcionavam como base governista. Recentemente, Ardavín Migoni prestou seus serviços como assessor da Secretaría de Gobernación (2004-2005), da Secretaria del Trabajo (2003-2006), e fez parte da Comissão de Vigilância do Instituto del Fondo Nacional de Vivienda para los Trabajadores. Tudo isso durante o governo de Vicente Fox. No âmbito privado, é sócio e gerente de várias empresas de construção e dono da consultoria Estrategia Empresarial, que trabalha diretamente com o Partido Acción Nacional (no poder entre 2000 e 2012) (González Ruiz 2012).

[13] “MEMORANDUM: La UNAM víctima de la agitación promovida por MURO”, Distrito Federal, 04-04-68, AGN, IPS, Caix 1448 B, Exp. 42, folhas 1-4.

[14] Organização ainda na ativa. Em 2001, mudou seu nome para Consejo de la Comunicación, A. C.

[15] Pioneiro da exploração madeireira na região da península de Yucatán.

[16] Depois de gestão como secretário da Defesa Nacional, entre 1940 e 1946, o general Lázaro Cárdenas volta à vida pública para a organização da Conferência pela Soberania Nacional, a Emancipação e a Paz, com o objetivo de criar uma frente anti-imperialista latino-americana. Realizada entre o dia 5 e 8 de março de 1961, a Conferência teve representantes de todos os continentes. Os eixos discutidos foram, entre outros, a premissa de que sem emancipação econômica não haveria independência política, que a luta contra o imperialismo era condição fundamental para qualquer plano de desenvolvimento dos países latino-americanos, e que a Revolução cubana mostrava o caminho para acabar com a dominação estrangeira. Nesse encontro foi decidido criar o MLN. O novo organismo representou a primeira frente ampla de caráter autônomo capaz de juntar todas as forças anti-imperialistas e partidárias, independentemente de filiação ideológica e classe social. Não era um partido, nem se propunha à luta eleitoral. O objetivo principal era defender um projeto de nação inspirado no nacionalismo da época cardenista. Sem ideologia específica, seu programa estava concentrado em quatro pontos: 1) a luta contra o imperialismo e suas guerras, 2) a defesa da soberania nacional, 3) a busca da democratização do país, e 4) a prática de uma série de reformas econômico-sociais que elevassem as condições de vida da população. O programa está baseado nos princípios constitucionais, ponderando métodos legais e pacíficos para a reforma do Estado. É uma experiência interessante, porque muitas das futuras lideranças guerrilheiras passaram pelas fileiras do MLN. O movimento, finalmente, não sobreviveu. Vários fatores determinaram a ruptura das organizações que o conformavam: não existia uma estratégia e tática definida; no interior se vivenciou uma luta pelo controle do movimento (muitos dos quadros eram lideranças do PRI, uma das questões que incomodavam a “esquerda doutrinária”); existia um desacordo sobre a questão eleitoral (Jaso Galván 2016).

[17] “Movimiento Universitario de Renovadora Orientación (MURO)”, Distrito Federal, 12-03-64, AGN, IPS, Caixa 2851 A, Exp. 14, folhas 1-5.

[18] Atualmente o cubano, agora cidadão estadunidense, mantém a página web de notícias chamada Nuevo Acción. Disponível em: http://nuevoaccion.com/ [último acesso em: 30-05-16].

[19] “Memorándum: La UNAM víctima de la agitación promovida por MURO”, Distrito Federal, 04-04-68, AGN, IPS, Caix 1448 B, Exp. 42, folhas 1-4.

[20] “Memorándum: La UNAM víctima de la agitación promovida por MURO”, Distrito Federal, 04-04-68, AGN, IPS, Caix 1448 B, Exp. 42, folhas 1-4.

[21] Poeta e tradutor de obras clássicas. Professor de latim na UNAM, foi membro da Academia Mexicana de la Lengua desde 1962.

[22] “Movimiento Universitario de Renovadora Orientación (MURO)”, Distrito Federal, 12-03-64, AGN, IPS, Caixa 2851 A, Exp. 14, folhas 1-5.

[23] “Información General de los Estados”, 03-11-74, Distrito Federal, AGN, IPS, Caixa 1159 B, Exp. 4, folha 1.

[24] “Movimiento Universitario de Renovadora Orientación (MURO)”, Distrito Federal, 12-03-64, AGN, IPS, Caixa 2851 A, Exp. 14, folhas 1-5.

[25] A DFS guardou alguns exemplares dos jornais do MURO. No caso de Puño: Para golpear com la verdad! e Brecha Universitaria, podemos apreciar que a impressão era de dez mil exemplares para distribuição focalizada nas universidades públicas.

[26] “Enfrentamiento”, Distrito Federal, 23-08-66, AGN, IPS, Caixa 1611 B, Exp. 9, folha 1.

[27] “Informe confidencial: Instituto Politécnico Nacional”, Distrito Federal, 02-10-69, AGN, IPS, Caixa 1494 B, Exp. 6, folhas 1-2.

[28] “Se rumora entre los diversos sectores sociales (…)”, Distrito Federal, 10-06-72, AGN, ISP, Caixa 1783 D, Exp. 13, folhas 1-2.

[29] A partir do levante do Ejercito Zapatista de Liberación Nacional (EZLN), em 1994, temos maior clareza sobre um corpo de elite treinado pelos EUA. Conhecidos como “boinas verdes mexicanos”, o Grupo Anfibio de Fuerzas Especiales (GAFES), atualmente, chama-se Cuerpo de Fuerzas Especiales de México. O grupo foi escalado pelos altos mandos militares mexicanos, e treinado com verba e tecnologia estadunidense na nova versão contrainsurgente da guerra de baixa intensidade inaugurada em El Salvador e Nicaragua, faz alguns anos. Por volta de 2007, um total de 1.378 homens de um total de 5.500 desses gafes(assim conhecidos devido à sigla do grupo) desertaram do exército e iriam compor um dos grupos de assassinos mais violentos que operam atualmente no território mexicano: Los Zetas, vinculados ao narcotráfico, ao sequestro e venda de pessoas (Reyes 2009).

[30] “Se rumora entre los diversos sectores sociales (…)”, Distrito Federal, 10-06-72, AGN, ISP, Caixa 1783 D, Exp. 13, folhas 1-2.

[31] “Relación de las vicitas (sic) que resibieron (sic) el día de aller (sic) los llamados presos políticos de la Cárcel Preventiva de la Cd.”, Distrito Federal, 21-08-72, AGN, IPS, Caixa 953, folhas 1. / “Cárcel preventiva de la ciudad y de mujeres”, Distrito Federal, 30-09-73, AGN, IPS, Caixa 1490 A, folhas 1-11.

[32] “En los diferentes sectores de la entidad, se comenta positivamente las labores que efectúa el Ejército”, Chilpancingo, 14-12-71, AGN, IPS, Caixa 1783 D, Exp. 13, folhas 1-4.

[33] “Atraparon a los monjes que inyectaban a niños, en Acapulco”, El Sol de Medio Día (p. 4), Chilpancingo, 15-12-71, AGN, IPS, Caixa 1783 D, Exp. 13, folha 1.

[34] Tanto a ação cívica como as operações de caráter psicológico estão localizadas dentro do que é conhecido como Guerra de Baixa Intensidade (GBI). O exército é empregado em tarefas que não são propriamente militares com o objetivo estratégico de construir um consentimento ativo e organizado em torno ao funcionamento do sistema imperante. Para chegar a um clima favorável para o desenvolvimento da GBI, utilizam-se as forças militares para limpar seu histórico repressivo, assim como para legitimar sua participação na política repressiva do Estado (EZCURRA, 1988, p. 96).

[35]“Información de Veracruz”, Jalapa, 19-11-76, AGN, IPS, Caixa 1747 B, Exp. 6, folhas 1-2.

[36] “Por medio de pintas se invita a la ciudadanía”, Guadalajara, 19-11-76, AGN, IPS, Caixa 1747 B, Exp. 6, folha 1.

[37] “Autoridades fronterizas norteamericanas”, Ciudad Acuña, 20-11-76, AGN, IPS, Caixa 1747 B, Exp. 6, folha 1.

[38] “Circula un fuerte rumor en las escuelas del IPN”, Distrito Federal, 18-11-76, AGN, IPX, Caixa 1747 B, Exp. 6, folha 1. Los padres de Echeverría, Rodolfo Echeverría e Catalina Álvarez, são mexicanos.

[39] “Han circulado intensamente los rumores de que el presidente de la república fue herido de un balazo”, Durango, 18-11-76, AGN, IPS, Caixa 1747 B, Exp. 6, folhas 1-2.

[40] “Hay desconcierto entre la población”, Reynosa, 18-11-76, AGN, IPS, Caixa 1747 B, Exp. 6, folhas 1-2.

[41] “Información de Zacatecas”, Zacatecas, 19-11-76, AGN, IPS, Caixa 1747 B, Exp. 6, folha 1.

[42] “Se observa completa calma en esta ciudad”, Tijuana, 19-11-76, AGN, IPS, 1747 B, Exp. 6, folha 1.

[43] “Se observa completa calma en esta ciudad”, Tijuana, 19-11-76, AGN, IPS, 1747 B, Exp. 6, folha 1.

[44] “Hay desconcierto entre la población”, Reynosa, 18-11-76, AGN, IPS, Caixa 1747 B, Exp. 6, folhas 1-2.

[45] “Hoy se rumoró que mañana se llevará a efecto un golpe de Estado”, Tlaxcala, 19-11-76, AGN, IPS, Caixa 1747 B, Exp. 6, folhas 1-2.

[46] “Serie de rumores que se han propalado en la Ciudad”, Distrito Federal, 19-11-76, AGN, IPS, Caixa 1747 B, Exp. 6, folhas 1-4.

[47] “Información de Baja California”, Tijuana, 20-11-76, AGN, IPS, 1747 B, Exp. 6, folhas 1-2.

[48] “Boletín informativo de la CNC”, Distrito Federal, 24-11-76, AGN, IPS, Caixa 1747 B, Exp. 6, folhas 1-4.

[49] Escritor e jornalista, nascido em 1915. Autor do livro Derrota Mundial (1953) em que expõe, a partir da análise dos primeiros anos da Guerra Fria, os mecanismos da suposta infiltração judeu-maçônica-comunista. Abertamente partidário do nacional-socialismo, é o mais reconhecido defensor das teses de Hitler no México. Sua extensa obra jornalística e bibliográfica serviu de inspiração para o Yunque e outros grupos estudantis de direita, bem como para os quadros fundadores do PAN (Proceso 2008). Ainda hoje existem grupos de estudos da obra deste escritor, sobretudo, entre os setores neonazistas. 

[50] “‘Plan Y’ en México. Postergación del Ejército”, BORREGO, Salvador, El Norte, Monterrey, 19-09-76, AGN, IPS, Caixa 1747 B, Exp. 6, folha 1-2.

[51] “‘Plan Y’ en México. Postergación del Ejército”, BORREGO, Salvador, El Norte, Monterrey, 19-09-76, AGN, IPS, Caixa 1747 B, Exp. 6, folha 1-2.

[52] “Ante los planes siniestros venidos de los más altos niveles de nuestro gobierno”, Distrito Federal, 1976, AGN, IPS, Caixa 1747 B, Exp. 6, folhas 1-5.

[53] O MIR foi um grupo guerrilheiro chileno fundado em 1965. Após a vitória eleitoral de Salvador Allende, em 1970, o MIR declara que haverá uma trégua nas ações armadas, abandonando, assim, a clandestinidade e iniciando um processo de formação de um partido de massas. Alguns quadros políticos e militares do MIR participariam ativamente no governo da Unidade Popular. 

[54] “Ante los planes siniestros venidos de los más altos niveles de nuestro gobierno”, Distrito Federal, 1976, AGN, IPS, Caixa 1747 B, Exp. 6, folhas 1-5.

Enlaces refback

  • No hay ningún enlace refback.


Licencia de Creative Commons
Este obra está bajo una licencia de Creative Commons Reconocimiento-NoComercial-CompartirIgual 4.0 Internacional.

Revista nuestrAmérica, ISSN 0719-3092, es una publicación seriada de investigaciones científicas y académicas con especial interés en el pensamiento crítico y descolonial. La edición es realizada por Ediciones nuestrAmérica desde Abajo Ltda, antes llamado Corriente nuestrAmérica desde Abajo en la ciudad de Concepción, Chile. Esta publicación es coordinada por su directorio desde Argentina, Chile, Brasil y México. Revista nuestrAmérica no aplica ningún tipo de cobro por procesamiento de contenidos y adhiere a las políticas de acceso abierto. Esta revista adhiere a las políticas mínimas comunes del primer acuerdo de Deycrit-Sur. Todo lo aquí publicado se realiza exclusivamente bajo una licencia de Creative Commons Reconocimiento-NoComercial-CompartirIgual 4.0 Internacional.

Para más informaciones comuníquese a través del correo contacto@revistanuestramerica.cl